Educação Negritude Raça

A celebração do homem negro e gay pelas lentes de Marlon Riggs em Affirmations e Anthem

Homens negros amando homens negros é um ato revolucionário

Nenhuma frase poderia resumir de forma mais sucinta a força da obra de Marlon Riggs. Nascido no Texas, filho de militares, Riggs foi um ativista gay, educador, diretor, escritor e poeta que tentou até o seu último suspiro (ele lutou contra o vírus HIV simultaneamente enquanto filmava vários de seus documentários) mudar a percepção negativa que sociedade americana tinha não só do homem negro, mas também do homem negro gay e afeminado. 

Meu encontro com o diretor aconteceu de forma aleatória quando a crítica de cinema Shelley B. Farmer postou em seu feed do Instagram uma foto belíssima em preto e branco de dois homens que me eram, até então, desconhecidos. Riggs e o poeta Essex Hemphill estavam abraçados, ambos sem camisa, enquanto Riggs encarava as lentes com um olhar desafiador, Hemphill mantinha um olhar quase que de tristeza, carregado de um cansaço físico e psicológico de uma vida de preconceitos interseccionalizados por ser negro e gay. O post era sobre um detalhado ensaio de Wesley Morris sobre a carreira de Marlon Riggs para o NY TIMES intitulado Blackness, Gayness, Representation: Marlon Riggs Unpacks It All in His Films”. A combinação daquela imagem com o título do ensaio em negrito foi poderosa o bastante e permaneceu em minha mente por horas, fazendo com eu procurasse e assistisse naquela mesma noite ao magnífico Tongues Untied (lançado em 1989). 

“Nós não vamos voltar para dentro do armário, nós não vamos abaixar a cabeça, não vamos voltar a limpar e cozinhar e fazer trabalho doméstico. Aqueles dias acabaram, e a direita ainda não percebeu isso.” – Marlon Riggs.

Em Affirmations (1990) e Anthem (1991) Riggs usa, em mais ou menos grau, o recorte raça, classe, política e religiosidade, juntamente com batidas de hip hop e música africana que criam uma fusão hipnótica com os movimentos de dança de Willi Ninja durante uma cena de Ballroom, e com o próprio Marlon Riggs que dança usando vários tipos de roupas, mostrando dessa forma, que a homossexualidade negra deveria ser celebrada tanto dentro da comunidade negra como no homofóbico mundo do rap, e não combatida, numa tentativa branca de varrer a sexualidade do homem negro para baixo do silencioso tapete da morte.

Cena de Affirmations

 

Ao abrir Affirmations de forma acertada com uma cândida entrevista em que um jovem negro, de modo vergonhoso e risonho descreve os tipos de sensações sentidas antes, durante e depois de sua primeira vez com outro homem, Marlon deixa claro sua mensagem: não há nada mais satisfatório do que a sensação de pertencimento. Usando imagens inéditas de Tongues Untied ele aborda, entre outros temas, o seu desapontamento com a falta da aceitação do homem negro e gay dentro da historicamente homofóbica comunidade negra. Para Riggs, o negro gay afeminado vive na margem da margem da margem, uma vez que é considerado o Outro por não ser branco; por não ser hétero, e posteriormente por não ser machão, como no seu caso e de outros vários homens negros e gays, por serem portadores do vírus HIV. Portanto, vivendo não na margem, mas bem distante dela.

De acordo com Riggs, a mídia, juntamente com o cinema norte-americano eram (e de certa forma ainda são) os culpados pela propagação de uma versão hipersexualizada do homem negro, ignorando as nuances do homem negro sensível, afeminado, gay e queer. Por consequência, a própria comunidade negra acaba reforçando e perpetuando o estereótipo do negro machão e violento, criando um loop de homofobia e queerfobia contra crianças e jovens que não se encaixam nesse padrão de masculinidade tóxica. Jovens tornam-se adultos que não lidaram com a sua própria homossexualidade, muitas vezes tendo uma homofobia internalizada como ponto inicial para seus ataques homofóbicos contra aqueles que, por alguma razão, foram bem educados, amados e portanto, se sentem plenamente bem resolvidos e felizes em explorar sua sexualidade. Ainda sobre representatividade, Riggs afirma que seu trabalho é tentar demonstrar alguns equívocos sobre o que significa ser negro e gay, e como resultado, acabar com essa noção imprecisa que a direita conservadora trata as identidades destes grupos, os excluindo de serem membros da comunidade que eles fazem parte, e ao mesmo tempo, colocando o gay branco com passabilidade hétero como o rosto da comunidade LGBTQIA.

Sobre a representatividade nas telas e o lugar do homem negro gay

Riggs usa seus filmes para questionar o modo suspeito com que o cinema independente norte-americano escolhe constantemente retratar a homossexualidade como patologia, transformando seus personagens em criminosos, pedófilos, infelizes, suicidas e assassinos. Logo, mais cineastas negros gays precisam ter seu espaço para contar suas histórias com liberdade. Precisamos, entretanto, deixar bem claro que não só gays, mas sim negros gays, porque como vimos antes, o gay branco não é apenas o retrato da comunidade, mas também acaba sendo o protagonista em filmes voltados ao público considerado LGBTQ. Só quando cineastas negros e gays obtiverem a liberdade de criar sua realidade, saindo da visão negativa que a Hollywood branca e heteronormativa costuma criar, haverá mudança. Mas Riggs explicita, de modo pertinente, que alguns cineastas gays acabam por fazer parte do problema, pois foram condicionados desde jovens a se entenderem como anomalias. O diretor vai ainda mais adiante na questão da representatividade ao afirmar veementemente que vozes negras não precisam necessariamente de distribuição (ao menos de imediato) em cinemas lotados para serem considerados importantes, mas sim, estar em salas de aula, igrejas e bares, pois só assim, irão educar o público-alvo sobre assuntos que abordam a intersecção entre raça, gênero, classe, nacionalismo e sexualidade nos locais onde ele se sente mais confortável.

Capa do filme O nascimento de uma nação

Podemos arriscar dizer que o grande culpado por essa demonização e desumanização do homem negro no audiovisual norte-americano dos últimos dois séculos talvez tenha sido D. W. Griffith com seu racismo pavoroso no reprovável (porém estrondosamente primoroso em seu pioneirismo e em suas inovações técnicas) O Nascimento de Uma Nação (1915), sendo considerado o primeiro blockbuster do cinema norte-americano. Lá, Griffith usa atores brancos em blackface portando-se como selvagens prontos para estuprar mocinhas brancas. O Nascimento de Uma Nação foi, inclusive, responsável não apenas por reviver, mas também glorificar a Klu Klux Klan no que hoje é considerado por muitos o filme mais racista de todos os tempos. 

Antirracistas e pró-gays precisam entender a importância de uma luta conjunta

Riggs praticamente aponta o dedo com um didatismo incrível que negros, gays, negros gays, lésbicas, negras lésbicas, mulheres trans e gays brancos, apesar de não sofrerem o mesmo tipo de opressão, ela estará de alguma forma conectada, visto que a sociedade é homofóbica, transfóbica, misógina e racista, está sempre enxergando as minorias como ameaças ao seu paradisíaco status quo. Affirmations e Anthem são uma poderosa celebração poética e experimental da multiplicidade do corpo negro homossexual,  e precisam ser descobertos imediatamente por todos, pois é inadmissível que em pleno ano de 2020 ainda existam pessoas que se recusam a andar para frente, ficando presos em seu loop particular em que se acham melhores que os outros por causa da sua raça ou orientação sexual.

Você poderá gostar

1 Comentário

Deixe um comentário

Autores para prestigiar na Bienal do Livro de São Paulo 2022 Lançamentos do mês para ficar de olho Tudo sobre o álbum “Renaissance”, de Beyoncé Os romances de Nicola Yoon Um livro que vai te encantar: “Instruções para dançar”, de Nicola Yoon “Sobrevidas”, do ganhador do Nobel Abdulrazak Gurnah Motivos para ler “O brilho do amanhã”, de Ishmael Beah Por que você deveria conhecer Langston Hughes? 3 obras de Neal Shusterman Livros de Talia Hibbert