Literatura brasileira

Contos Negreiros e os estereótipos raciais

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Em sua 12ª edição, publicada pela editora Record em 2020, Contos Negreiros, como o título já diz, é um livro de contos que supostamente deveriam funcionar como uma crítica à herança da escravidão na vida da população negra brasileira. Com uma capa que parece ter sido meticulosamente criada para chocar o possível leitor, o autor criou 16 contos que possuem em comum o ato de transformar a vida negra em algo que é chamado lá fora de Torture Porn (curiosamente, lembrei de imediato, de que nos anos recentes, “Detroit em Rebelião”, filme dirigido pela diretora branca Kathryn Bigelow, e que aborda conflitos raciais nos anos 60, foi severamente acusado de explorar a dor do povo negro de forma gratuita). 

Em Contos Negreiros somos apresentados à intermináveis narrativas de desgraças, tragédias, estereótipos raciais e sociais, em que a ideia que fica é que o negro não pôde, não pode e não poderá nunca ser retratado como alguém alegre que está apenas existindo em sua plenitude. E se levarmos em consideração que o autor é um homem branco, não apenas o tema dos contos, bem como a linguagem utilizada acaba tornando-se questionável para dizer o mínimo. 

Todos os personagens homens são retratados como ladrões, tarados — quando são gays —, como seres exóticos e/ou hipersexualizados. Já as mulheres são retratadas como miseráveis, sem cultura e sem desejo de aprender, complacentes com o abuso sofrido diariamente pela sociedade racista, e por incrível que pareça, ainda existe uma personagem negra que não só relembra com uma espécie de ternura a noite em que foi vítima de um estupro coletivo por vários policiais em uma delegacia, como também, de modo surpreendente, diz que se pudesse escolher, gostaria de ser escravizada no exterior.

Vejamos, por exemplo, o conto “Solar dos Príncipes”. Nele somos apresentados a um grupo de 4 cinegrafistas que estão rodando um documentário. Ao abordarem o porteiro de um prédio em um bairro rico, o trabalhador imediatamente imagina se tratar de um assalto, porque é claro que 4 pessoas negras reunidas só podem estar tramando algum roubo, como ele deixa claro ao dizer que “ladrão é assim quando quer sequestrar. Acompanha o dia a dia, costumes, a que horas a vítima sai pra trabalhar” (p. 23). O conto, porém, ganha um fiapo de crítica acerca do racismo internalizado ao descobrirmos no final que o porteiro é um negro de pele clara. Logo, temos uma pequena lembrança de que essa sociedade racista bombardeia todos os dias a população — seja através de cinema, tv, livros etc. — com uma imagem deturpada do que significa ser negro no Brasil, fazendo um homem negro achar que outro negro (mas de pele escura) só pode ser bandido pelo simples fato de estar ao redor de outras pessoas negras.

Fonte da imagem: Site Barco

Não sei se consigo, ou se de fato devo ver com bons olhos um autor branco escrever sobre um homem negro furioso por ter deixado de vender um dos rins por 10 mil reais, chegando mesmo a dizer que “se é pra livrar minha barriga da miséria até cego eu ficaria” (p. 54). Para dar o tom de crítica social, um desleixado repúdio acerca da situação de meninos de rua é devidamente acrescentado no parágrafo seguinte. 

Já em “Coração”, o autor parece fazer um comentário sobre a solidão do gay negro e afeminado, mas ao mesmo tempo, usa termos ofensivos como “bixa” e o retrata como um ser desesperado sexualmente, que está sempre a procura de sexo em locais públicos, como vagões de trem ou ônibus, reforçando a ideia de que todos os homens gays são depravados, e criminosos sexuais em potencial. Em “Curso Superior”, conhecemos a história de um jovem negro que sonha em se casar com a loira gostosa da faculdade, e aqui finalmente temos um conto que parece não tratar a vida do negro como tragédia (ao menos literal), e sim um pertinente comentário sobre a miscigenação e de como a mulher branca e loira é considerada como um tipo de melhoria gradativa do tons de pele das gerações futuras.

No entanto, em “Totonha” o autor abandona a melhoria adquirida com o conto anterior e escreve sobre uma mulher negra de meia idade que parece ter orgulho em não saber ler e escrever. Em certo momento ela diz: “não preciso ler, moça. A mocinha que aprenda. O prefeito que aprenda. O doutor. O presidente é que precisa saber ler o que assinou. Eu é que não vou baixar minha cabeça para escrever” (p. 81). “Totonha” funciona como uma síntese perfeita sobre o que esperar de Contos Negreiros: não sabemos ao certo se o livro funciona melhor como uma denúncia ao racismo sistêmico sofrido pela população negra brasileira, ou se foi na verdade criado sob medida para que leitores brancos finalmente percebam que o racismo existe; e é praticamente impossível — pelo menos para mim — ignorar o fato de que estamos diante de uma obra escrita por um autor branco que usa a dor do povo negro como um espetáculo educacional para consumidores brancos.


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1 Comentário

  • Responder
    Maria Antônia - @litera.toando
    30 dezembro, 2020 em 11:50

    Chocada com a problemática que envolve esse livro. Peguei ele pra ler uma vez e não passei do conto 1 porque senti que me decepcionaria. Gostei bastante da resenha! Xero!

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