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Feminismo Gênero Literatura LGBTQIA+

As políticas sexuais de Gayle Rubin

“Não existe época com uma consciência do sexo mais estridente do que a nossa.” (p. 136) – Virginia Woolf, em “Um Quarto Só Seu”

Definitivamente, uma leitura obrigatória para quem estuda identidade de gênero, opressão de gênero e sexualidades em geral, Políticas do Sexo (contendo os ensaios “Tráfico de Mulheres”, de 1975 e “Pensando o Sexo”, de 1984), com tradução de Jamille Pinheiro Dias, é um livro de certo modo bem acessível, ainda que a autora aborde temas desagradáveis que devem vir precedidos de um alerta de gatilho (mutilação genital feminina infantil para combater o desejo sexual; incesto, sadomasoquismo) e fanatismo religioso.

Relativamente curto (128 páginas, sem contar bibliografias), o livro faz análises pertinentes sobre a relação do capitalismo e a opressão feminina; a pornografia versus feminismo radical; e sobre o casamento heterossexual, que de certa forma é estudado aqui como a origem da opressão feminina, visto que a mulher vira objeto submisso/doméstica sem remuneração financeira e passa a depender do marido, dando, dessa forma, poder ao homem.

Em “O Tráfico de Mulheres”, Rubin dialoga com nomes como Monique Wittig, Lacan, Freud, Foucault e Strauss ao interseccionar a opressão de gênero com as ideias básicas do capitalismo e o marxismo. O primeiro conceito abordado é um estudo sobre como a mulher só é realmente mulher antes do casamento,  visto que após a cerimônia ela passa a ser a esposa, a escrava; em outras palavras: uma auxiliar de homem. Rubin chama isso de “Mulher Domesticada”.

“Eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não remunerado.” – Silvia Federici.

Um aspecto interessante é sua recorrente comparação da ideologia marxista e a opressão de classe com a opressão feminina, visto que “as mulheres são força de trabalho de reserva para o capitalismo, e os salários geralmente inferiores pagos a elas proporcionam uma mais-valia suplementar ao empregador capitalista” (p. 12). É intrigante o recorte que a autora faz através de uma lente Straussiana sobre o casamento heterossexual como uma troca de presentes, e de como o incesto, de certa forma, é o causador do casamento: uma vez que pais, filhos, mães e irmãos não podem se casar entre si, a mulher tem de ser “trocada” por uma mulher de outra família. O “elemento moral histórico” faz com que essa mulher se transforme em esposa: uma necessidade do trabalhador. Esse elemento determina que a mulher vire a responsável pelo trabalho doméstico em vez dos homens, fazendo com que ela nunca consiga figurar em papéis de liderança. Só após entendermos esse processo de submissão moral e histórico através de uma análise detalhada é que poderemos descrever as estruturas da opressão feminina.

Gayle Rubin

Entenderemos que o que conta como sexo/gênero é definido e moldado através de nossas vivências culturais e sociais. Ignorar essa construção e se ater apenas a procriação é um desserviço descomunal se quisermos, de fato, acabar com a opressão feminina. Assim como a opressão de gênero, o patriarcado é um produto social de relações que se organizam entre si.

“Boa parte da literatura feminista atual atribui a opressão da mulher a representações explícitas do sexo, prostituição, educação sexual, sadomasoquismo, homossexualidade masculina e transexualidade. O que aconteceu com a família, a religião, a educação, as práticas de criação dos filhos, os meios de comunicação, o Estado, a psiquiatria, a discriminação no trabalho e a desigualdade salarial?” (p. 116)

“Morte aos homens! Morte ao pênis”, elas gritaram.

Um dos pontos altos do livro acontece quando a autora rebate o famoso clichê feminista acima. O primeiro erro começa ao relacionar pênis somente aos homens, e em segundo, o problema não acaba com a “morte de todos os homens”, já que algumas mulheres também reproduzem pensamentos sexistas. De acordo com a autora, uma “revolução feminista ideal” deveria se preocupar em encontrar formas de eliminar o sistema que cria o sexismo. “Mas se o homem deixar de existir ainda vai existir o machismo?” é uma pergunta pertinente. Rubin diz que o fim do homem não é a resposta, mas sim o fim do sistema sexista. Oras, se é o homem que está no topo, criando meios para continuar no poder, investindo na propagação de pensamentos machistas e todos os tipos possíveis de opressão, então uma vez fora da equação, ele deixaria de contaminar todas as mulheres a sua volta com suas ideias. Logo, o homem não estaria presente para plantar a semente da opressão na mulher, que por sua vez deixaria de ensinar esses pensamentos aos seus filhos e filhas. Então pergunto: o que é o homem senão o próprio meio de opressão?

“Pensando o Sexo”

No segundo ensaio, a autora, frustrada com o rumo das ideias político-sociais da década de 70, dialoga novamente com Foucault e exemplifica com maestria a hipocrisia da sociedade conservadora com relação a fetiches, educação sexual, transexualidade e homofobia. Inspirada em um curso sobre economia tribal, Rubin elaborou “Tráfico” como uma mutação de ideias marxistas, estruturas elementares do parentesco (Strauss) e ensaios psicanalistas sobre a feminilidade. Definitivamente mais polêmico que o anterior, este ensaio aborda temas que são considerados tabus pela sociedade: incesto, pedofilia, a idade ideal de consentimento, sadomasoquismo, e de forma extremamente gráfica, a mutilação clitoriana feminina como combate ao desejo sexual (que era então entendido como patologia).

Curiosamente, o ensaio conta com um certo tipo de humor pontual, ao problematizar assuntos tão espinhosos. Em uma passagem engraçadíssima, a autora conta a história de um praticante de sadomasoquismo que foi flagrado usando um chicote (com consentimento) em seu parceiro. De acordo com as leis da época, a violência era estritamente proibida durante o sexo, sendo permitida somente em esportes como boxe ou futebol americano. Rubin então mostra estatísticas com o número de acidentes graves (ou até fatais) no futebol americano se comparado com o sadomasoquismo. Em suma, decidiram que a insanidade está em quem pratica sexo seguro e não os 99% dos jogadores de futebol americano que sofrem ou já sofreram lesões cerebrais gravíssimas: “O tribunal, no entanto, declarou a sanidade dos jogadores de futebol americano e a insanidade dos masoquistas” (p. 122). 

Esclarecedor em vários momentos, este ensaio tem seu ponto alto ao explicar como o estigma do “delinquente sexual” surgido no século 19 para descrever estupradores e molestadores de crianças passa a ser usado propositalmente contra homossexuais, numa tentativa conservadora pós-guerra de gerar um medo coletivo nacional que deixa marcas até os dias atuais. Como consequência vários trabalhadores corriam risco constante de perderem seus empregos, de serem perseguidos e espancados por gangues homofóbicas. Com a chegada da AIDS nos anos 80, esse tipo de comportamento criminoso ficou ainda mais grave. Conservadores de direita andavam armados com tacos de beisebol em bairros gays à procura de confusão, já que vizinhos igualmente criminosos faziam vista grossa e os crimes nunca eram denunciados. Ainda que esse tipo de crime já não aconteça com frequência (ao menos à luz do dia), os traumas e a visão negativa com relação aos gays já estão enraizados na mente da sociedade. A homofobia era tão ostensiva, a dificuldade de encontrar empregos era tão escassa que muitos homens gays preferiam se alistar no exercito e correr o risco de serem dizimados em uma guerra por um país que fazia de tudo para destruí-los em casa.

Senti, em certos momentos,  um incômodo com algumas opiniões da autora. Rubin compara a fuga dos negros do sul para o norte com os gays que fogem da homofobia do interior, apenas para enfrentar problemas ainda maiores nas grandes metrópoles, como se essa comparação de opressões fosse realmente necessária; ou, quando ela diz que pedófilos estariam sofrendo uma caça as bruxas por causa de sua “opção sexual”. Tive, inclusive, de ler o mesmo parágrafo várias vezes para entender se aquilo tratava-se ou não de uma defesa aos pedófilos. Ainda que na nota de rodapé ela tente argumentar que na época da publicação do ensaio o significado da palavra pedófilo não era “molestador infantil”, mas sim “homens atraídos por adolescentes”, sua opinião não deixa de ser, no mínimo, curiosa.

Devido a sua insatisfação cada vez maior com o determinismo biológico e excludente do feminismo branco da década de 70, Rubin finaliza seu ensaio fazendo duras críticas ao feminismo radical com sua incrível cegueira normativa e predisposição a ignorar propositalmente o “torna-se mulher” de Beauvoir, e toda construção social e cultural de gênero enquanto abraçavam sua limitação intelectual ao gritar que  “mulheres nascem e não são feitas”.

Em uma entrevista (obrigado Rodrigo Aguiar pela indicação da entrevista) com Judith Butler, Rubin disse que após a publicação de “Tráfico” sua esperança era de que ao menos 200 pessoas lessem seu ensaio. Mal sabia que havia acabado de criar uma das obras mais influentes e aclamadas das últimas 50 décadas.

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