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Literatura Negritude Raça

‘Let Love Rule’, a autobiografia de Lenny Kravitz

Disposto a contar detalhes de sua vida desde seu nascimento até o lançamento do seu primeiro álbum, “Let Love Rule”, o músico e ator Lenny Kravitz abre seu coração ao caminhar por lembranças alegres, dolorosas, excitantes e impactantes. Nesta biografia bem humorada, temos momentos de sutileza e paz ao mesmo tempo em que a brutalidade da polícia racista insiste em entendê-lo com uma ameaça desde o momento em que começou a caminhar pelas ruas de seu bairro. O destaque fica, sem dúvidas, para as lembranças bombásticas da sua relação corrosiva com o pai, o produtor de TV Sy Kravitz, decorrente de sua rígida educação militar e seu desdém pelas aspirações artísticas do filho. “Let Love Rule” foi disco de ouro nos Estados Unidos, Grã Bretanha, França, Holanda e Suíça, transformando o artista em uma uma lenda do rock, tendo, desde então, vendido mais de 40 milhões de álbuns no mundo todo e em 2005 foi incluído no livro 1001 discos para se ouvir antes de morrer, escrito por Robert Dimery.

Lenny abre o livro de uma forma que dialoga emocionalmente comigo. Um sonho. Suas lembranças aos cinco anos de idade assistindo Papa-Léguas e Pernalonga em uma TV preto e branco me teletransportaram à minha própria infância, quando eu assistia os mesmos desenhos que meu ídolo em uma TV preto e branco portátil, daquelas com rádio embutido. O sonho recorrente descrito pelo pequeno Leonard Albert Kravitz era, na verdade, um pesadelo em que estava sendo enterrado vivo. Não sei afirmar a data exata do início da criação do livro, mas é emblemático que as primeiras palavras escritas por ele sejam: “Eu não consigo respirar”. Uma frase importantíssima por sua relevância, que mesmo quase com 60 anos de diferença, nos remete às últimas palavras de George Floyd antes de ser assassinado por um policial em maio de 2020 em Minneapolis.

Ele volta no tempo, exatamente para 1963, e novamente me encontro em território conhecido e reconfortante: uma performance ao vivo de John Coltrane e sua banda em um esfumaçado bar no Greenwich Village. A descrição impressiona pela riqueza de detalhes. Trata-se de um encontro de seu pai, Sy Kravitz, branco e judeu com sua futura esposa, Roxie Roker. No fim do capítulo ele retorna ao casamento dos país, e aqui descobrimos que seus avós paternos, racistas de origem russa, não aceitavam seu filho branco se casando com uma mulher negra, mas de forma bela, sua simples existência trouxe paz à família, já que com seu nascimento seus avós conseguiram perceber e abandonar o racismo.

Ele escreve que surpreendentemente, a primeira pessoa que o colocou em contato direto com a música foi seu avô paterno, um alfaiate com aspirações musicais não concretizadas. Sua paixão começou de fato aos cinco anos com o sucesso dos Jackson Five: “Uma coisa é dizer que você gosta de uma banda, outra é dizer que uma banda mudou sua vida.” (posição 261 do Kindle). Em sua pré-adolescência surpreende os pais ao fazer parte de um coral de igreja, chegando até a se apresentar no Pavilhão Dorothy Chandler. Entretanto, mesmo após uma experiência espiritual em que foi visitado por Deus, ele sentiu que precisava conhecer várias outras religiões e frequentar várias outras igrejas. O jovem estava passando por uma crise de religiosidade antes mesmo dos 18 anos.

“Só porque eu estava na igreja não quer dizer que eu estava me afastando do rock’n’roll” (posição 1026 do Kindle)

De fato ele não se afastou, visto que na sexta ele estava na rua fumando maconha e escutando Black Sabbath com meus amigos no centro, no sábado estava cantando música clássica com os meninos do Coral Califórnia, e no domingo lá estava ele adorando o senhor na igreja. Apesar de muita busca, o autor estava muito longe de encontrar sua paz espiritual, e ainda que sua musicalidade estivesse à beira da descoberta, foi preciso a influência de um professor de percussão enérgico para que o ele ficasse ciente da sua própria multi-instrumentalidade. 

Podemos afirmar que o espírito inquieto do artista aos quatorze anos era realmente impressionante. Certo dia após mais uma briga com o pai, ele rouba o carro da mãe, vai ao clube mais próximo, e ali encontra uma garota de programa da sua idade, que a mando de seu cafetão, tentava, na verdade se aproximar de seu pai, e não dele. Ao tomar conhecimento da história, ele não só elabora um plano digno de Travis Bickle para salvar a vida daquela pobre menina, como a esconde em sua casa por cerca de um mês, até ser descoberto pela mãe; que por sua vez, graças ao seu bom coração, ajuda a menina a se restabelecer na sociedade. Ele era ao mesmo tempo rebelde, contestador, explosivo, amoroso, carinhoso e preocupado com todos à sua volta. Conheço e escuto suas músicas desde a minha infância quando “Ain’t over till it’s over” tocava todos os dias na rádio local. Lenny passa e sempre passou a ideia de uma plenitude e humildade em todas as suas entrevistas, então foi um choque descobrir que ele não foi sempre assim. Sua fase de arrogância foi resultado de seu sucesso precoce como músico e cantor do prestigiado coral. Acho que qualquer adolescente se sentiria da mesma forma caso atingisse uma dose de sucesso local, e além do mais, o próprio autor recorda esses momentos agridoces de rebeldia e arrogância com certa vergonha.

A biografia ganha peso devido ao grande espaço que o autor guarda para a relação explosiva e traumática com pai: com passagem pelo exército, o estilo autoritário nunca foi a escolha ideal para que ambos conseguissem estabelecer uma relação amigável, e após mais uma briga particularmente grave com o pai, ele abandona o luxo da casa paterna aos 16 anos e passa a dormir em um carro alugado enquanto trabalhava fritando peixes em um bar decadente. É curioso, entretanto, descobrir que de todas as pessoas possíveis, foi seu pai, que nunca o apoiou em suas aventuras musicais, que o convenceu a buscar uma carreira solo após ver uma apresentação da banda do filho. Quando finalmente um certo vínculo parece ter sido criado entre os dois, ele descobre que o pai não apenas estava traindo a mãe a quase duas décadas, como também estava roubando o dinheiro da conta dela e comprando carros, casas e viagens para a amante. Fica evidente desde o primeiro capítulo que a relação com o pai nunca foi a desejada por ele, mas ainda sim, foi um choque saber que após a descoberta, o compositor de “I Love New York” chega mesmo a cogitar matar o próprio pai com a arma deste, tamanha a sua revolta com a traição.

Um dos muitos aspectos positivos de Let Love Rule, e que algumas pessoas parecem estar listando como negativo, é a constante necessidade do autor em citar pessoas famosas, sejam elas do mundo da música, do cinema, ou da TV. Acho que seria impossível evitar o name dropping (prática conhecida na língua inglesa, em que alguém casualmente menciona nome de pessoas famosas para impressionar outra pessoa), visto que sua mãe era da TV, o pai era produtor e suas tias eram cantoras, ou amigas de cantoras. Um de seus amigos de cabelo encaracolado do ensino médio viria a tornar-se Slash; quando tocava bateria em uma orquestra, o ator principal do musical era simplesmente o jovem Nicolas Cage. Particularmente, acho prazeroso a enorme quantidade de citações, pois no caso de não ser familiarizado com algum nome citado, eu encontraria ali uma chance de conhecer novos artistas e novas músicas. A oportunidade de aprendizado não deveria ser considerada um ponto negativo, visto que o excesso de informações fornecidas pelo autor é apenas uma paixão por tudo aquilo que ele fez nos primeiros vinte e cinco anos de vida, culminando no lançamento de seu primeiro álbum.

É impossível falar de Let Love Rule sem mencionar a importância da mulher negra na vida do cantor. Desde criança foi rodeado pelo amor delas: da mãe, das tias e das várias vizinhas que ocupavam o papel de avós. Porém, é Lisa Bonet, na época amiga e futura esposa, que precisa receber todos os créditos pelo sucesso da carreira musical do autor, uma vez que ela não apenas foi a responsável pelo seu redescobrimento artístico (que até então usava o nome de Romeo Blue), como também é creditada como compositora de “Fear” e cocompositora de “Rosemary”, além de ser a fonte de inspiração para a maioria das músicas do álbum. É sintomático, portanto, a enorme quantidade de músicas com a palavra “love” no título, uma vez que quando ficamos sabendo de todos os detalhes relacionados ao amor recebido por ele, tudo começa a fazer sentido, tamanha a influência das amorosas mulheres negras presentes em sua vida.

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1 Comentário

  • Responder
    Priscila Tavares de Freitas
    28 janeiro, 2021 em 23:09

    Oi Willian, tudo bem?
    Realmente parece ser uma obra interessante. Não tenho o hábito de ler biografias, mas creio que quando nos identificamos com a pessoa em questão, a leitura passa a ser agradável.
    Abraços!

    Quanto Mais Livros Melhor

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