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Racismo, misoginia e religião: A estreia de Baldwin em “Go Tell It on the Mountain”

Primeiro romance escrito por James Baldwin, Go Tell It On The Mountain (ainda ainda sem tradução no Brasil) foi publicado originalmente em 1953, e conta a trágica história da família de John “Johnny” Grimes, de 14 anos, e o seu [não] lugar em um círculo vicioso de hipocrisia, pecado, misoginia e violência familiar como herança. O romance também pode ser interpretado tanto como um estudo do impacto do fanatismo religioso nas famílias afro-americanas nos anos 30, e como uma veemente denúncia contra as sequelas da escravidão (e de todas as outras formas de racismo) em várias gerações de uma mesma família, e todos à sua volta.

Todos na família Grimes possuem traumas tão profundos, que uma vez em contato com outro ser humano, seja no passado ou no presente, um apodrecimento — pela intersecção de traumas — infelizmente acontecerá, e o resultado dessa catastrófica experiência são adultos infelizes criando filhos igualmente infelizes, que crescerão sem receber amor e sem saber como expressar suas emoções mais delicadas. De modo arrojado, Baldwin escreveu, aos 29 anos, uma história semi-autobiográfica, absurdamente rica e complexa, que, envolvendo quase vinte personagens, vai e volta no tempo de forma não linear, mas sempre com uma fluidez digna de um autor com décadas de controle absoluto das suas palavras, nos fazendo torcer — ainda que sem muitas esperanças — para que por um parágrafo, uma frase, uma linha apenas, os personagens consigam obter algum tipo de alegria, e não apenas continuar vivendo em um labirinto de tragédias que insistem em acontecer quando a anterior sequer foi cicatrizada. Tudo isso  enquanto ficamos sabendo da origem das dores de cada um dos personagens.

A religiosidade, como não poderia de ser, é onipresente durante todos os três capítulos: o primeiro, em que conhecemos a dinâmica da relação problemática entre John e sua família; o segundo, dividido em três subcapítulos, onde somos apresentados ao passado de Elizabeth, Gabriel e sua irmã Florence; e o terceiro, onde uma experiência espiritual funciona como o clímax do livro. Ao demonstrar a pobreza daquela família, o autor é sucinto e escreve trechos que exemplificam a condição precária da arquitetura e a situação sanitária  da casa, como por exemplo, quando o pequeno John ouvia, através das paredes finas, os gritos dos ratos que andavam para todos os lados quando a noite fria e escura chegava — nesse momento foi impossível não lembrar da terrível passagem em que um rato morde as bochechas gordas de um bebê no soberbo romance The Women of Brewster Place, escrito por Gloria Naylor em 1982.

A priori, temos a impressão de que John, que está completando 14 anos quando a história tem início, é o protagonista do romance, mas como Baldwin reserva bastante espaço para cada personagem principal durante o livro, temos vários protagonistas, fazendo com que cada morte, acidente e tragédia seja realmente impactante para o leitor, e não uma experiência vazia, diluída por personagens que sofrem com um desenvolvimento superficial. John é o filho mais novo da família Grimes, e carrega a inerente pressão de ser o herdeiro da fé e da religiosidade do padrasto, Gabriel. Lutando contra a sua insatisfação em um ambiente soterrado pelo fanatismo religioso, rígido e violento, o pequeno John ainda precisa lidar com sua homossexualidade. 

Gabriel é o padrasto de John, e  pode ser entendido como o vilão do romance. Hipócrita e misógino, é um dos filhos de Rachel, uma ex-escravizada. Aterrorizado pela violência e pelo racismo, ele cresceu com um ódio justificado pelos brancos. Aqui fica evidente, depois de ter lido vários ensaios do autor, que Gabriel é baseado no padrasto de Baldwin. Selvagem e mulherengo, Gabriel se tornou pastor aos 21 anos, após um sinal recebido por Deus em um sonho. Violento ao extremo, ele usa a religião como desculpa para cometer uma série de atos reprováveis contra todos à sua volta. 

Deborah sofreu abuso sexual aos 8 anos por um grupo de homens brancos. Baldwin denuncia a hipocrisia da sociedade americana (e da sociedade no geral), porque não obstante, a pobre garota é vista por todos como pecadora e não como a vítima de um crime tão brutal. Em nenhum momento somos informados sobre o destino dos criminosos, ou se eles ao menos foram considerados como tais. Como escrevi na minha análise de Dark Days, ler James Baldwin é excruciante, porque apesar de seus livros terem sido escritos décadas atrás, nós somos vítimas de uma impotência esmagadora ao perceber que a maioria dos problemas enfrentados por ele no passado ainda continua acontecendo escancaradamente no presente. 

Chegamos então em Elizabeth, segunda esposa de Gabriel, mãe de John e seus outros filhos, Roy e Sarah, sua filha mais nova. Aliás, se há algo remotamente parecido com um defeito no romance, seria o desenvolvimento dos irmãos de John, Sarah e Roy, que aparecem pouco na narrativa. Vítima de uma vida trágica, Elizabeth sofreu com e após a morte da mãe, ao ser criada por uma tia que usava a violência, física e psicológica, como forma de educar. Desgastada emocionalmente, ainda que muito jovem, só encontrou um fiapo momentâneo de felicidade quando começou a namorar Richard, um rapaz muito inteligente e autodidata.

Edição original de Go Tell it On The Mountain

Um detalhe interessante sobre a quantidade exorbitante de tragédias em Go Tell it On The Mountain é o fato do autor escrever de forma quase displicente sobre determinados acidentes, mortes, e tragédias dos personagens já no início do livro, sem se aprofundar em detalhes, quando aquele personagem não está de fato sendo o protagonista. Portanto, quando chegamos à parte do livro em que a origem desse ou daquele personagem está prestes a  ser contada, nós já sabemos quais são as raízes dos traumas daquela pessoa no presente, porém sem ter noção da profundidade daquelas raízes, nos restando apenas — e esse detalhe é o que faz o romance funcionar tão bem — um suspense interminável, pois não obstante, nós ficamos dependentes de como e onde Baldwin irá posicionar a tragédia: muitas vezes ele faz isso sem aviso, num virar de páginas, ou num começo de parágrafo, nos causando um sufocante pavor de ficarmos frente a frente com algum acidente escrito de forma gráfica.

Em última análise, embora todos os capítulos sejam plasticamente impecáveis, o destaque fica para o último, quando o pequeno John é finalmente escolhido por Deus durante uma missa. Após um transe inesperado, Baldwin nos leva à uma longuíssima noite em que John perambula por obscuros lugares de sua mente, tendo que enfrentar pesadelos, traumas espinhosos e desagradáveis,  e paixões delirantes, consideradas imorais por sua religião. Mas ainda que a profecia aconteça, John — um intelectual com infinitos dons artísticos — ainda carrega um ódio mortal pelo padrasto, por fazê-lo perseguir a carreira de pastor contra a sua vontade, me fazendo entender esse esplêndido Go Tell It On The Mountain (considerado pela Modern Library em 1998 como o 39º livro mais importante do século 20) como uma analogia certeira, ainda que devastadora, sobre o tratamento do homem negro não apenas na racista sociedade americana, mas como no mundo todo; e como a mulher negra —nas palavras certeiras de Audre Lorde —, encontra-se ainda mais à margem daquela sociedade, sendo definida como a outra em qualquer grupo que participar; pois ela sofria e continua sofrendo sistematicamente por ser mulher em uma sociedade machista e por ser negra em um mundo racista; porém se acrescentarmos outros recortes, ela irá sofrer por ser trans, por ser gorda, por ser lésbica, por ser deficiente, etc. O que fica de lição da estreia de Baldwin como escritor de romances é que enquanto o patriarcado existir, a mulher negra só encontrará tragédia em sua vida.


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