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Tensão e traição em Judas e o Messias Negro

Inspirado em fatos reais, Judas e o Messias Negro (dirigido por Shaka King) conta a história de William O’Neal (LaKeith Stanfield, de Corra!), um assaltante de carros que ao ser preso pelo FBI, aceitou, em troca da liberdade, uma proposta do agente Roy Mitchel (Jesse Plemmons, de Breaking Bad) de se infiltrar na sede dos Panteras Negras e ser um informante na operação que resultou no assassinato de Fred Hampton (Daniel Kaluuya, também de Corra!), líder dos Panteras Negras em Illinois. O excelente elenco também conta com nomes como Ashton Sanders (Moonlight e Filho Nativo) e Dominique Fishback (O Ódio que Você Semeia).

Apostando na tensão crescente, nas cenas de ação e nas atuações sempre marcantes de Stanfield e Kaluuya, e na recriação de uma outra época, o diretor já estabelece o tom de veracidade na cena de abertura em que vemos O’Neal, já envelhecido, participando de uma entrevista em 1989, e em seguida, enquanto nos mostra imagens reais de protestos da década de 60 — e como não poderia deixar de ser, de brutalidade policial. Falar da recriação da época sem destacar o trabalho em conjunto do diretor de fotografia Sean Bobbitt (12 Anos de Escravidão), do responsável pelo design de produção Sam Lisenco (que atuou no departamento de arte de Se a rua Beale Falasse), e da figurinista Charlese Antoinette Jones seria uma injustiça. Fotografado com maestria por Bobbitt de modo analógico, o filme ganha um aspecto opressivo e sufocante graças aos tons em cores esverdeadas usadas em cenas noturnas banhadas no mais belo chiaroscuro — que contrasta com as cores brancas da parede da casa da mãe de Hampton, indicando um lugar em que ele pode finalmente se sentir em paz. Já Charlese usa e abusa das cores verdes nas roupas desbotadas dos membros da organização, indicando que não foi ao acaso que os uniformes usados por cada um eram roupas velhas, provavelmente parte do uniforme dos combatentes do exército americano que estavam de volta à cidade após chegar da guerra do Vietnã. E se aquele vestuário acabou se tornando icônico, foi pura coincidência, uma vez que a moda deveria ser a menor das preocupações de quem estava lutando pela vida.

Reprodução/Warner Bros

Infelizmente atual, se levarmos em consideração que a violência policial parece nunca ter fim, o filme é destinado ao sucesso graças ao diálogo que faz com a situação política atual e os protestos que vêm acontecendo desde a criação do movimento BLM. Gerações atuais, aliás, poderão conhecer um pouco de uma organização que — assim como os ativistas pelos direitos civis — sofreu devido à uma tentativa sistêmica de apagamento através de fotos em preto e branco. Logo, ao vermos líderes tão importantes como Hampton em cores fortes, essa tentativa da polícia e dos jornais de direita de apagar a importância de todo um movimento, certamente perderá o efeito. Várias vezes, por exemplo, vi pessoas que, ao se depararem com fotografias coloridas de Martin Luther King Jr. e Malcolm X sentem um estranhamento porque a mídia e os livros de escola os fizeram acreditar que essas pessoas existiram 100 anos atrás, e que agora vivemos todos em harmonia em uma sociedade pós-racial.

Contando com atuações magistrais do trio Stanfield, Kaluuya e Plemons, três dos atores mais talentosos dessa geração, o filme eleva a sua própria qualidade quando eles compartilham alguma cena, seja Plemons e Stanfield ou Stanfield e Hampton. E se Plemons aparece sempre iluminado com luzes duras, criando sombras assustadoras em seu rosto contrastando com sua voz doce e reconfortante, LaKeith é mostrado sempre suado, e é favorecido por longos close-ups; e Kaluuya, por sua vez, É Fred Hampton. Inglês, o ator esqueceu seu sotaque e literalmente retirou a iconicidade do líder dos Panteras Negras e dela se apropriou a cada manhã no set de filmagens.

Reprodução/Warner Bros

Ainda que retrate uma história mundialmente conhecida, Judas e o Messias Negro também serve como uma apresentação de Fred Hampton à toda uma nova geração. O filme usa bem a tensão criada por se tratar de uma história que termina em assassinato, e a partir da metade do filme ficamos apreensivos, esperando o derradeiro momento, e essa espera nos causa ansiedade, falta de ar e desconforto. E a sequência final, filmada em silêncio absoluto, é devastadora.

Nos resta agora, a noite de premiações do Oscar, visto que, após um sucesso absoluto de crítica, o filme está concorrendo em seis categorias: Melhor filme, Melhor ator coadjuvante (com ambos Kaluuya e LaKeith), Melhor canção original (H.E.R.), Melhor roteiro original e Melhor fotografia (Sean Bobbitt).

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