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Espionagem e falso empoderamento feminino em “Os Bilhões de Arsène Lupin”, de Maurice Leblanc

Publicado em 1941, Os Bilhões de Arsène Lupin é o último romance protagonizado pelo tão adorado protagonista antes da morte do autor no dia 6 de novembro daquele mesmo ano. Foi com bastante curiosidade, portanto, que iniciei essa leitura, uma vez que já sabia tratar-se do adeus oficial do famoso ladrão francês criado por Leblanc em 1905. Foram 17 romances e 39 novelas.

A trama

Patrícia, uma jornalista talentosa e mãe solteira, está prestes a receber uma oportunidade que vai mudar sua carreira. Seu patrão, James, é também seu noivo e pai de Henry, ex-noivo de Patrícia. Henry abandonou Patrícia grávida no passado. James diz à Patrícia que está trabalhando em algo grande e que precisa ir a Paris em breve. Certa noite, após o expediente, à distância, Patrícia vê James e seu sócio, Frédéric em uma rua suspeita, e por alguma razão, resolve segui-los. Ao notar que ambos entraram em um galpão — que minutos mais tarde seria o mesmo destino de mais 11 homens, cada um de uma classe social diferente — a repórter, com seu instinto jornalístico, resolve investigar aquela reunião. Naquela mesma noite James e Frédéric são assassinados. Nossa protagonista faz o que qualquer personagem desse tipo de literatura faria em uma hora dessas: embarca rumo à França para desvendar esse mistério.

A história — elaborada por Leblanc aos 75 anos — continha vários elementos necessários para o sucesso, mas é frustrante se deparar com uma protagonista que oscila entre o estereótipo (femme fatale) e a redenção (se preocupa unicamente com a vida do filho). Foi inocência acreditar em uma história de empoderamento feminino e subversão de expectativas nesse tipo de literatura. O autor parece estar construindo uma protagonista forte e independente à primeira vista, mas a transforma já nas primeiras 30 páginas em uma vítima de três assédios sexuais, além de ser perseguida pelo vilão da história, salvada pelo herói e disputada por outros dois homens como se fosse um objeto a ser dado ao vencedor; provando que nunca se pode elogiar cedo demais a escrita de um homem que se propõe a escrever personagens femininas fortes.

Se levarmos em consideração outros contos e romances protagonizados por Lupin, vários detalhes desse romance (publicado no Brasil pela editora Principis, com tradução de Andréia Manfrin Alves) são atípicos.  Alguns deles funcionam magistralmente bem, como por exemplo o fato de Lupin ser um coadjuvante em sua própria história, aparecendo (ou melhor: tendo sua identidade confirmada) somente após a metade da aventura, fazendo com que nós suspeitemos de que qualquer personagem possa ser Lupin por baixo de um forte disfarce; outros, entretanto — e principalmente um envolvendo um animal feroz como trunfo durante um confronto com 150 ladrões — é particularmente risível, ainda que funcione devido à falta de inteligência oportuna dos bandidos. Algo que também não funciona é o elemento sobrenatural inserido de forma desajeitada pelo autor no capítulo intitulado “Bela Adormecida”. Outros detalhes já são costumeiros em qualquer tipo de romance ou obra sobre espionagem e funcionam relativamente bem: espionagem repleta de ação, reviravoltas, amor, morte, traição, disfarces e uma trama internacional envolvendo uma organização secreta que funciona como um simples mcguffin. Essa organização em particular me fez lembrar o clássico “The Secret Six”, de 1931, dirigido por George W. Hill, e protagonizado pelo vencedor do Oscar Wallace Beery. Ali os milionários se juntam para acabar com o reinado de um ladrão famoso; já aqui a organização secreta luta para roubar a fortuna escamoteada por Lupin ao longo das décadas e dividi-la entre os membros.

The Secret Six

Embora conte com bons momentos, o romance acaba oscilando entre momentos ótimos e vergonhosos, transformando a história em algo facilmente olvidável. O que é uma pena visto que a história tinha potencial para ser muito melhor do que de fato é. E devo informar que o livro causa um estranhamento entre o penúltimo e o último capítulo. Algo não se encaixa e nós ficamos com a sensação de que uma peça esta faltando. Ao pesquisar sobre o que poderia estar causando essa anormalidade na narrativa descobri que o penúltimo capítulo — que certamente serviria como o clímax — está completamente ausente da versão original em francês que imagino ter sido a base para essa tradução. Erro infeliz para dizer o mínimo. Não obstante, prefiro escolher uma explicação menos anticlimática e mais excitante: escolho entender o roubo do capítulo como uma irônica piscadela do anti-herói. O derradeiro golpe de Arsène Lupin antes de nos dar adeus para sempre.

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3 Comentários

  • Responder
    Lorena Ribeiro
    22 maio, 2021 em 18:10

    Caramba! 17 romances e 39 novelas??? Muita coisaaaaa! Que fôlego, ler tudo isso! Rs
    Tenho uma amiga escritora que tem um personagem ator que encena uma série inspirada no Arsène Lupin, a Bruna Guerreiro (autora paraense). Então, eu sempre fiquei curiosa para ler os livros, mas eu também tenho bastante preguiça. Rs.

    Parabéns pela resenha, William! Gostei muito dessa sacana final sobre o sumiço do capítulo. hahaha

    • Responder
      William Alves
      24 maio, 2021 em 09:21

      Oi Lorena! Primeiramente obrgado por comentar e ler o texto. Os romances do Lupin, bem como os contos que eu li, são divertidinhos apenas. É o tipo de leitura que eu recomendo usar como escape entre leituras densas, sabe? Ir alternando para não sobrecarregar a mente com questões profundas, etc. Boa semana!

  • Responder
    Aline
    27 maio, 2021 em 20:36

    Ótima resenha!

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