Cinema

“Dois Estranhos” e a irresponsabilidade de usar a violência contra o corpo negro como entretenimento

Direção: Travon Free e Martin Desmond Roe. Roteiro: Travon Free. Elenco: Joey Bada$$, Andrew Howard e Zaria Simone.
Nota: ★☆☆☆☆

ALERTA DE GATILHO: RACISMO E VIOLÊNCIA POLICIAL

“Dois Estranhos” é um curta em que um designer gráfico, Carter James (Bada$$), fica preso em um time loop ao sair de um encontro amoroso com Perri (Simone), e é constantemente morto a tiros por um policial branco (Andrew Howard) na tentativa de voltar à sua casa.

Com uma premissa, que apesar de não ser original, pode resultar em ótimas produções quando utilizada de modo criativo, sendo “Contra o Tempo”, de 2011, e “No Limite do Amanhã”, de 2014 dois exemplos que me vêm à mente, “Dois Estranhos” (Netflix) cria falsas expectativas no espectador já nos minutos iniciais, quando nos mostra um demorado close-up em uma edição de The Fire Next Time, de James Baldwin, na sala de estar do protagonista. Algo que deveria ser regra é o seguinte: se você decide inserir uma citação ao maior autor americano do século 20 — que escreveu magistralmente sobre o que é ser negro nos Estados Unidos durante a Era Jim Crow — em seu filme, mais do que tudo, você precisa estar comprometido a criar algo relevante e não apenas superficial para honrá-lo. Irresponsável no tom da fotografia alegre, que nada combina com o tema abordado, e nas piadas totalmente fora de lugar, temos um filme que na primeira sequência de assassinato recria o modo como George Floyd foi morto por Derek Chauvin em uma desastrosa e longuíssima cena que irá causar gatilhos em vários espectadores, pois a câmera permanece fixa no rosto de Carter, e enquanto este é asfixiado, chega a repetir “Não posso respirar.” várias vezes antes de morrer. Se apenas essa descrição causa revolta, imaginem ver essa cena se repetindo cerca de 100 vezes, em que Carter é morto por tiros por diferentes ângulos, e inclusive em câmera lenta, prolongando o sofrimento do espectador? Imaginem o sofrimento do parente de alguém morto pela polícia assistindo a repetição desse pesadelo com forma de entretenimento.

É sintomático o fato do filme estar recebendo reações negativas e sendo alvo de protestos — apesar de ter sido vencedor do Oscar de melhor curta no último mês —, sendo constantemente acusado de ser mais uma obra de torture porn e black trauma porn (termos utilizados quando uma produção banaliza a dor do corpo negro a usando como entretenimento). É importante ressaltar que na história recente outras produções já receberam as mesmas acusações, sendo “Detroit em Rebelião”, de 2011, e mais recentemente, a série americana “Eles”. Como, por quê, e para quem essas produções continuam sendo financiadas e produzidas apesar de serem constantemente recebidas de forma negativa tanto pelo público como pela crítica? É para o público branco perceber que racismo é errado graças ao Whitesplaining (quando uma pessoa branca explica o que é racismo — e suas consequências — à uma pessoa negra), uma vez que “Detroit em Rebelião” foi dirigido e escrito por duas pessoas brancas, e “Eles”, apesar de ter sido criada por um homem negro (Little Marvin), conta com que 5 diretores brancos e apenas uma diretora negra (Janica Bravo)?

O que poderia ter sido uma pertinente metáfora sobre a universalização da violência e do racismo sistêmico sofrido pela população negra norte-americana (e do resto do mundo) através dos séculos, acaba se tornando uma versão gourmet de um comercial de refrigerante. O roteiro, aliás, sofre com diálogos sofríveis. Em determinado momento, por exemplo, Simone diz para Carter “tentar conversar com o policial e pedir para que ele não o mate tantas vezes”, como se essa opção fosse realmente verossímil. Adiante, Carter pede ao policial que o leve para casa, e dentro da viatura — no banco de trás, atrás das grades — pergunta a data de nascimento dele, e ao ouvir a resposta, solta um “você é um cara sensível.”

Outro detalhe que pode ser destacado é o exagero em transformar o policial em um monstro. Sabemos, obviamente, que a polícia, bem como as penitenciárias, devem acabar, pois entupir prisões com pessoas (negras, em sua vasta maioria) não faz a criminalidade diminuir. Entretanto, a escolha da postura do policial, bem como seus maneirismos e sua expressão facial são exageradas, em tentativa de transformar a instituição na vilã que nós já sabemos que ela é. Oras, a composição do personagem é tão estereotipada que bastaria colocá-lo trajando roupas civis em uma esquina que imediatamente o reconheceríamos como racista. Alguns espectadores, entretanto, podem argumentar que este exagero e essa sensação de falsidade por parte do policial foi, de fato, uma escolha deliberada dos diretores, indicando, talvez, que não importa quantos anos se passem, os policiais nunca serão confiáveis — o que, no final das contas, é uma ideia bem mais próxima da verdade.

“Dois Estranhos” trata de um tema muito importante com extrema irresponsabilidade, além de ser a prova de que ser bem intencionada não faz uma produção ser automaticamente boa. Ademais, o filme desperdiça uma ótima oportunidade de examinar e denunciar, de modo sociológico, a repetição da violência policial e o racismo estrutural que faz com que o jovem negro, independentemente de suas decisões e caminhos escolhidos no dia a dia, esteja constantemente com um alvo nas costas.


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2 Comentários

  • Responder
    Lorena Ribeiro
    18 junho, 2021 em 19:27

    Ai, William!!! Eu tô aqui chorando só com a descrição. Nossa! Eu tô muito mal, mesmo. Nossa!!!!!!!!
    Eu não vou mesmo assistir a esse filme. Obrigada por sua crítica tão contundente sobre o porquê de não engatarmos traumas através de algo que deveria ser fonte de inspirações para discussões e aprendizados…

    • Responder
      William Alves
      21 junho, 2021 em 14:27

      Realmente, Lorena, esse filme não tem nenhum ponto positivo. Obrigado pela leitura.

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