Cinema Educação

Livros e filmes para o Dia Mundial da Alfabetização

Existem pessoas que olham para a época do ensino fundamental e médio com um misto de terror e alívio. Outros preferem direcionar a mente aos bons momentos, às amizades criadas, etc. Muitas pessoas sofriam bullying, portanto é sintomático — e fácil de entender — quando, embora existam momentos felizes, a maioria acaba relembrando os traumas. Existe também o grupo que olha com saudosismo para os professores. Esses profissionais que ganham pouco, enfrentam longuíssimas jornadas de trabalho, e muitas vezes — mas não todos — inovam em sua abordagem para que seus alunos consigam aprender de fato e não apenas receber um depósito de informação.

Embora eu faça parte do grupo que geralmente não tem boas lembranças do período escolar, uma coisa é certa: sou grato pelos poucos — mas ótimos — professores que tive que não eram adeptos da educação bancária tão criticada por Freire. Minhas professoras de história e português no ensino médio são as únicas que me saltam à mente. Um fato triste, infelizmente.

Foi pensando nessa realidade enfrentada por muitas crianças e jovens que compilei essa lista com 3 livros para conhecermos o trabalho de Paulo Freire, Patrono da Educação Brasileira, e que foi um dos principais nomes no combate contra o racismo, a homofobia e o elitismo enquanto exercia sua profissão de alfabetizador; e 3 filmes possuem a alfabetização como tema central. Os filmes foram escolhidos devido à sua importância cultural e social, e também por dialogar com a proposta do blog. Espero que gostem da lista.

LIVROS

1 – Política e Educação
Autor: Paulo Freire
Editora: Paz & Terra

Em Política e Educação Freire aborda entre outros tópicos, o fim do encimadomurismo político. Sem surpresas, considera a escola democrática e menos elitista não apenas um direito de todo cidadão, mas também uma obrigação de luta conjunta, e se caso ela não seja alcançada na paz, nós precisamos brigar para termos direito a um sistema de ensino que não seja reacionário e pragmático, e que não discrimine ninguém. Sabemos que Freire lutava por um futuro em que tivéssemos a liberdade de questionar, de não só pensar, mas de pensar fora da caixa. A missão de Paulo Freire era transformar adolescentes despolitizados em adultos conscientes, livres de qualquer preconceito, seja ele de sexo, raça ou religião. Um pensamento que infelizmente, várias décadas após sua morte, ainda é considerado utópico e radical, principalmente por aqueles que nunca leram uma obra sequer do autor, mas que insistem em criticar seus métodos como se fossem especialistas. Um texto mais aprofundado sobre as ideias abordadas por Freire pode ser lido aqui.

 

2 – Alfabetização: Leitura do Mundo, Leitura da Palavra
Autor: Paulo Freire
Editora: Paz & Terra

Alfabetização: Leitura do Mundo, Leitura da Palavra chega ao Brasil em 2021 com nova edição da editora Paz & Terra e dialoga perfeitamente com a situação atual da (des) política brasileira, que como sabemos está se afundando em um oceano estupidamente anti-educação, anti-ciência e antidemocrático. Enfático contra o modo de ensino bancário e autoritário, Freire deixa claro que seu foco, como educador crítico, é desafiar os alunos — sempre ignorando o autoritarismo —, pois só assim eles começam a entender a grandeza de sua liberdade intelectual. Algo que Freire já escreveu várias vezes merece ser destacado nesse texto: o fato de que, segundo ele, nenhum tipo de educação consegue ser neutra, uma vez que o professor sempre irá tentar influenciar seus alunos com sua ideologia política. Estamos diante de um livro que contém passagens interessantíssimas, entre elas, as passagens que narram todo o envolvimento de Freire na alfabetização de adultos em países como Guiné-Bissau e Cabo Verde. Uma análise mais longa pode ser lida aqui.

 

3 – Pedagogia da Esperança
Autor: Paulo Freire
Editora: Paz & Terra

Publicado originalmente em 1997, com nova edição da Paz & Terra lançada em 2020, Pedagogia da Esperança ganha tons de reflexão por parte de Freire, após três décadas da publicação de Pedagogia do Oprimido. Aqui o autor relembra o sucesso daquela obra, bem como as críticas recebidas por ele acerca da linguagem machista do livro. Escrito da tradicional forma já conhecida pelos fãs do autor, Pedagogia da Esperança não contém capítulos, tratando-se de um longo ensaio em que o autor relembra — com uma acertada autocrítica — os acontecimentos ulteriores à publicação Pedagogia do Oprimido, assim como suas viagens e os aprendizados que ele obteve através do contato com os fãs e críticos de suas palestras ao redor do mundo. Confira o texto completo aqui.

FILMES

1 – Ao mestre com carinho, 1967
Direção: James Clavell
País: Inglaterra

Sidney Poitier, que já apareceu aqui no blog no texto sobre The Devil Finds Work, livro de James Baldwin, é o protagonista dessa produção inglesa que aborda temas raciais e sociais. Ele é o professor Mark Thackeray, um imigrante da Guiana Inglesa e tem como missão educar alunos-problema brancos que foram responsáveis pela desistência de vários professores. Apesar de parecer pela descrição acima um filme dramático cheio de tensão, a produção é bem humorada e reconfortante, e se beneficia do enorme talento de Poitier, de modo que em certos momentos até esquecemos que estamos diante de um filme. O uso de rock and roll como trilha sonora fez o filme ser um sucesso imediato.

 

2 – Entre os muros da escola, 2008
Direção: Laurent Cantet
País: França


Baseado no livro homônimo de François Bégaudeau publicado em 2007, Entre os muros da escola aborda temas como classe, identidade, raça, história colonial, imigração, e um problema global dentro das escolas: a falta de diálogo entre alunos e professores. Estrelado pelo próprio autor do livro, que interpreta o desajeitado professor François, o filme usa pessoas que não eram atores e pode ser entendido como parte de uma nova onda do cinéma vérité francês — técnica de filmagem que se assemelha a documentários. Um detalhe interessante é que o filme se passa somente dentro da escola, sem acompanhar a vida dos personagens fora daquele ambiente, o que sobra tempo para a tenção entre os alunos — de classes e raças variadas. “Entre os muros da escola” ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. 

3 – Ao mestre com carinho 2, 1996
Direção: Peter Bogdanovich
País: Estados Unidos

“Ao mestre com carinho 2”, como o título indica, é uma continuação do filme de 1967. Aqui temos Thackery sendo novamente interpretado pelo soberbo Sidney Poitier, porém estamos 30 anos no futuro, e Thackery, após 20 anos trabalhando em Londres, está prestes a aceitar um emprego como professor em Chicago, nos Estados Unidos. Um detalhe importante é a adição de uma subtrama em que Thackery, já com idade avançada, e talvez remoendo dores e arrependimentos do passado, busca por um antigo amor na cidade. Os temas do primeiro filme ainda são abordados aqui, claro, mas com toda a diferença que três décadas podem trazer. A diferença cultural e social também é acentuada devido às roupas e à linguagem, bem como a violência — alunos frequentemente levam armas à sala de aula —, uma vez que o mundo das gangues dos anos 90 fazem parte dos temas abordados pelo roteiro. Muitos especialistas tendem a desmerecer o filme simplesmente pelo fato de que ele foi feito para a TV, sendo que o principal atrativo é poder ver Poitier reprisando um papel tão icônico.


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