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Não-ficção Raça Teoria negra

“Por uma revolução africana”: o anticolonialismo de Frantz Fanon

Que Frantz Fanon é um nome cada vez mais importante para se pensar o hoje, é inconteste. Médico psiquiatra, filósofo e militante revolucionário nascido na Martinica, Fanon é autor dos clássicos obrigatórios Pele negra, máscaras brancas e Os condenados da terra. Em Por uma revolução africana (publicado pela Zahar com tradução de Carlos Alberto Medeiros e ótimo prefácio de Deivison Faustino) temos acesso a alguns de seus textos políticos.

Escritos entre os anos de 1951 e 1961, os textos de Por uma revolução africana nos mostra um Fanon preocupado e ativamente envolvido com as questões que lhe eram importantes à época. O autor assume uma posição crítica e combativa ao colonialismo, apontado toda sorte de violência praticada por aqueles países que se sentiam donos das terras que reivindicavam para si e, com isso, acreditavam estar no direito de subjugar seus povos como bem entendessem. E essa posição é tomada de dentro do olho do furacão: os textos presentes no livro nascem a partir da experiência do autor como psiquiatra e revolucionário em meio à Guerra da Argélia. Não temos, portanto, um ponto de vista distante daquilo que se contesta, mas sim um olhar de alguém que vivencia de perto os problemas que expõe – algo que fica bem marcado nas críticas que Fanon faz aos intelectuais de esquerda franceses por conta de suas posturas.

Todavia, não são só esses temas que se fazem presentes em Por uma revolução africana. Como o livro abarca uma década de produção, há certa versatilidade na coletânea. É o que vemos logo na primeira parte do livro, em que Fanon, ao comentar a situação do colonizado, abre um discurso acerca das relações étnico-raciais entre negros e brancos. Mas indo além, o autor também discorre sobre as percepções dos sujeitos negros – sejam aqueles em diáspora ou aqueles em África – a respeito de si mesmos e de seus semelhantes, que passadas por transformações substantivas, precisam lidar com físsuras. É o que ele diz quando comenta que “antes, o antilhano na França lembrava a todo instante que não era um preto: a partir de 1945, o antilhano na França vai lembrar a todo momento que é um preto”. Entretanto, as coisas não eram tão simples assim, pois “o antilhano tinha dito não ao branco, mas o africano dizia não ao antilhano”. Com isso, se sentia “assombrado pela impureza, abatido pela contrição, esmagado pela culpabilidade, ele vivia o drama de não ser branco nem preto”. O que, de certa forma, ecoa nos dias de hoje, pois – por conta das mais variadas questões, é verdade – ainda temos aqueles que se sentem como esse antilhano. Contudo, e tal como ele, por se voltarem para a África e passar a interpretá-la, esses começam a sentir a sua vibração, e fazer como fez o antilhano, que “depois do grande engano branco, está a caminho de viver agora na grande miragem negra”.

Um ensaio que se destaca em Por uma revolução africana é aquele que compõe a segunda parte do livro, “Racismo e cultura”. Nele, Fanon afirma que “se a cultura é o conjunto dos comportamentos motores e mentais nascido do encontro do homem com a natureza e com seu semelhante, deve-se dizer que o racismo é de fato um elemento cultural”. Para tanto, o autor comenta que a implementação de um regime colonial não causa a morte da cultura autóctone. Segundo ele, a história nos mostra que uma “agonia constante” é mais desejável do que uma eliminação completa da cultura que existia anteriormente. Então Fanon faz um excelente comentário a respeito de como uma mistificação verbal passa a tomar o lugar da empreitada comercial da escravidão e, portanto, da destruição cultural. Ele diz que o interesse passa a ser uma incorporação do racismo como meditação, quiçá como uma técnica publicitária. E cita como exemplo, o blues, no qual chama de “lamento dos escravos negros”, e que é apresentado à admiração dos opressores. De acordo com o autor, “é um pouco de opressão estilizada que retorna ao explorador e ao racista. Sem opressão e sem racismo não há blues. O fim do racismo significaria o fim da grande música negra”. Ainda: Fanon é taxativo ao dizer que o racismo não é uma descoberta acidental. Tampouco um segredo. Conforme afirma, não se carece de nem um esforço sobrenatural para expô-lo. Para o autor, essa “exploração desavergonhada” alcançou uma superioridade técnica, e “é por isso que a opressão militar e econômica, na maior parte do tempo, precede, possibilita e legitima o racismo”. Apesar disso, Fanon atesta que “a imersão no abismo do passado é condição e fonte de liberdade”. Eis o caminho.

Dividido em cinco partes, Por uma revolução africana é um conjunto pungente do trabalho intelectual de Frantz Fanon. E no que tange à forma, não é hermético como seu Pele negra, máscaras brancas. Talvez pelo contexto em que esses textos foram escritos. Além disso, este volume funciona como documento histórico da luta dos oprimidos contra o imperialismo europeu e estadunidense. É simbólico – e muito importante – vermos um pensador tão expressivo na vanguarda do anticolonialismo e do antirracismo e, principalmente, reconhecendo que a luta armada pode ser o único meio para que uma revolução aconteça. Em suma, para Fanon todas as ferramentas que levem à liberdade são valiosas, e Por uma revolução africana reúne parte de sua contribuição para que essa liberdade possa se materializar.


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