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A ficção distópica de Natalia Borges Polesso em “A extinção das abelhas”

Da escritora Natalia Borges Polesso eu já havia lido Amora, que ganhou o prêmio Jabuti na categoria “Conto” em 2016. O livro virou uma referência na literatura de temática lésbica por trazer mulheres lésbicas de idades diferentes, em situações variadas e confronto com o “armário”.  Eu gostei muito deste livro, por isso, o romance A extinção das abelhas lançado em 2021 pela Companhia das Letras, foi uma das minhas leituras escolhidas para este ano.

A obra foi classificada como ficção distópica e a sinopse me deixou empolgada ao mostrar boas ideias: uma mãe que foge com o circo, um casal de mulheres que cuidam de Regina, a protagonista, e a própria Regina que começa a trabalhar de camgirl. O cenário da narrativa é um mundo pós-pandêmico que está em colapso. Regina tem uns 40 anos e uma relação problemática com uma mulher mais velha. 

Li as primeiras páginas rápido e com bastante interesse, os capítulos apresentam um encadeamento interessante, a última palavra de um capítulo é o título do capítulo seguinte que não tem necessariamente a ver com o anterior. Acompanhamos simultaneamente a narrativa de Regina sobre ela mesma e uma narrativa sobre a mãe que abandonou a família quando ela era criança. 

Na primeira parte do livro temos a apresentação dos conflitos das personagens. A relação com as abelhas já aparece nas primeiras páginas. Regina conta que um dia teve que ir embora correndo por causa de um enxame de abelhas e deixou o chinelo para trás. Nesta parte são evidenciados os problemas que ela tem com a mãe que fugiu com o circo e com o pai que virou alcoólatra depois disso. Mais à frente, Regina e Paula (com quem ela tem um relacionamento problemático) conversam sobre a relação existente entre o fim do mundo e a extinção das abelhas. Nesta parte também, Regina, cansada de ganhar pouco dinheiro sendo garçonete resolve pesquisar como funciona o trabalho de camgirl que a princípio, parece promissor, mas depois começa a fazer mal. Também conhecemos o casal Eugênia e Denise, que trabalham com mel das abelhas e embora sejam como mães para a Regina, são pessoas difíceis e reacionárias. 

Nessa primeira parte já temos a impressão de que não só o mundo está chegando ao fim mas é como se a vida da própria Regina também tivesse chegado ao limite porque ela tem problemas em tudo. Na segunda parte, não temos mais a titulação nos capítulos, e a voz narrativa parece não ser mais a Regina e assim, nos distanciamos da protagonista. O foco é o mundo em colapso, o mundo vira um grande lixão por causa da destruição ambiental. Distopia com mundo real se misturam, não há mais uma linha narrativa, passamos alguns capítulos sem saber o que acontece com Regina e na terceira parte, ela é encontrada  por Lu, vagando no lixão.

Em volta disso tudo, a narrativa é uma pós-pandêmica e a população está matando lésbicas. Então, podemos dizer que é um livro que traz essa pauta da existência e resistência das mulheres lésbicas. Mas essas personagens aparecem de um jeito pouco interessante. Fica aí uma questão: são séculos sem aparecermos representadas na literatura, não poderíamos mostrar mais coisas boas do que ruins sobre nós? Parece que há alguns anos, houve uma vontade de mostrar que as lésbicas também poderiam ser felizes, mas essa história mostra o contrário. 

Na terceira parte aparece um grupo de mulheres lésbicas que estão peregrinando, buscando um novo lugar para montar uma base de resistência, no entanto, elas também não são personagens muito cativantes. Também temos o desfecho da mãe que larga tudo para fugir com o circo e ela também tem um relacionamento com a colega de picadeiro. A trupe do circo vive um amor livre, enquanto viajam pela América Latina. Bom, essa mãe que foge pra ser mulher gorila e larga a família é interessante. Aliás, A extinção das abelhas é um romance com várias ideias interessantes, porém, me parece que as coisas se perdem no meio da narrativa, e no final, temos um livro com pouca conexão entre todas as ideias. 

Eu não sei se é porque a vida está ruim mesmo e ando precisando ler sobre coisas boas ou é o livro que é pouco carismático mesmo, mas a Regina está sempre na pior e tudo só piora ainda mais na vida dela ao longo da narrativa. A extinção das abelhas contribui um pouco mais com a minha desesperança diante da vida, logo agora, que estamos no segundo ano de pandemia, quiçá entrando no terceiro. Eu gosto mais quando a literatura me dá algum alento. Problemas com relacionamento, dinheiro, mãe, pai, solidão, eu já tenho bastante na vida. Talvez eu tenha depositado muita expectativa nesse livro porque a Natalia Borges Polesso foi uma das vozes mais potentes de uma geração e mostrou personagens e narrativas incríveis em Amora. Se ela escrever outro livro de contos, eu lerei, mas esse romance não funcionou para mim.


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