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Paixão e amizade durante a Segunda Guerra Mundial em “Adeus, meninos”, de Louis Malle

Adeus, meninos, traduzido por Glória Lins de Carvalho, é um livro autobiográfico do diretor francês Louis Malle, baseado em seu filme homônimo lançado em 1987. Publicado no Brasil em 1988 pela editora Bertrand Brasil, o romance aborda o nascimento de uma amizade — e adiante, uma paixão — entre dois alunos em um colégio interno para padres na França ocupada pelos nazistas entre 1943 e 1944.

Julien Quentin é um garoto na faixa dos 12 anos que apesar de performar uma virilidade exagerada, resultante do ambiente pautado pela hipermasculinidade jovial de pré-adolescentes, é na verdade um menino carente que odeia a monotonia da escola e o tempo que fica longe da mãe. Em determinado momento, um dos padres chega acompanhado de três novos alunos, todos de idades diferentes — e físico diferente do resto dos outros alunos. Um deles, Jean Bonnet acaba na mesma turma de Julien. Por ser precoce, delicado e um exímio pianista, Jean é constantemente provocado pelos outros alunos, inclusive por Julien.

Gradativamente, porém, e com as mãos calibradas de Malle, a relação elétrica entre os meninos vai se transformando em uma amizade devido ao amor pela literatura de ambos os garotos. Livros, inclusive, são recorrentes na trama, visto que os dois jovens — prestes a se descobrirem — amantes estão sempre dividindo a cama e a luz de uma fraca lanterna debaixo das cobertas para poder manter o hábito da leitura. Não é muito difícil captar o simbolismo de um objeto fálico — uma lanterna — sendo dividido entre dois amigos embaixo de uma coberta, em uma escola para padres.

Mas afinal, quem é Jean Bonnet? É uma pergunta que é feita repetidas vezes entre os alunos. De cabelos negros e encaracolados, o jovem é um anacronismo ambulante entre os garotos tipicamente franceses. Esta curiosidade, infelizmente, leva Julien a bisbilhotar entre os pertences do amigo e para sua surpresa, Julien Bonnet se chama na verdade Julien Kippelstein — um nome judeu. Ficamos então sabendo que os padres, que na verdade eram revolucionários contra o nazismo, usavam a escola como uma espécie de fortaleza para proteger garotos judeus cujos familiares haviam sidos capturados pelos nazistas. É nesse momento que começamos a dar mais atenção ao cenário em que a história acontece: estamos, afinal, lendo um romance baseado em fatos reais durante o ápice da Segunda Guerra Mundial.

É interessante repararmos como o autor-diretor Louis Malle começa pontualmente a tirar a guerra do plano de fundo, lhe dando um papel de co-protagonista do romance. Se até então a guerra quase não era percebida dentro do internato, após a descoberta de Julien, começamos a ler descrições de bombas explodindo em cidades vizinhas, além de um crescente sentimento de terror que passa dos personagens para nós, os leitores, a cada momento que as informações sobre soldados nazistas que estão invadindo casas e escolas vizinhas à procura de judeus aparecem.

Essa sensação iminente de tragédia atinge níveis desesperadores quando, durante um intervalo, os padres permitem que os familiares levem seus filhos para uma tarde de passeios. Na ocasião, Julien chama seu amigo Jean Bonnet para passar a tarde em um restaurante com seus pais, justamente quando membros de uma milícia francesa pró-nazismo invadem o local à procura de judeus. A partir deste momento sentimos o cerco se fechando, sentimos o pavor dos dois jovens em cada final de página. Nosso coração se aperta com essa história, que, apesar de simbolizada pela relação de dois adolescentes, conta uma história muito maior, de dor, de coragem, de covardia, e de paixão — ainda que não seja chamada por este nome.

Em última análise, ler Adeus, meninos nos causa um aperto no coração, visto que estamos diante de uma história inerentemente trágica que pode atingir um clímax possivelmente devastador no início de cada parágrafo. Nos resta apenas acompanhar e torcer para que estes dois jovens consigam aproveitar ao máximo o tempo que ainda possuem juntos pela frente. 


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