Literatura negra Negritude

Protagonismo negro e ancestralidade em “Olhos de azeviche: dez escritoras negras em vinte contos”

Contando com nomes como Eliana Alves Cruz, Elisa Lucinda e Lilian Rocha, Olhos de Azeviche: dez escritoras negras brasileiras em vinte contos (Malê), como o título já deixa claro, é uma coletânea de contos que reúne nomes consagrados e autoras que têm tudo para ser a referência da literatura nacional em alguns anos. Abordando temas como sexualidade, sucesso financeiro e profissional, solidão, violência doméstica e ancestralidade, as autoras fortalecem a literatura brasileira com histórias que às vezes causam alegria, às vezes tristeza, aflição e revolta.

Jussara, no conto “Amnésia” é uma uma mulher negra bem-sucedida nos negócios, que no início de uma gravidez aos 30 anos — que só aconteceu por pressão familiar —, se depara com sua versão de 12 anos ao abrir a porta enquanto espera para entrevistar uma candidata ao cargo de babá. A dinâmica entre as duas personagens nos causa duas reações principais: o humor com que a garotinha lida com a situação de início, e o espanto — seguido de tristeza — de Jussara (em sua versão adulta) quando percebe que aquele encontro significa confrontar suas decisões feitas no passado, bem como as futuras.

A sexualidade é abordada em vários contos, sendo “O desejo de existir”, de Elisa Lucinda, um dos meus preferidos. Nele, no que tudo indica ser alguns anos após o fim da escravidão, Hilário, um fazendeiro que nas palavras de Prudência, a protagonista, “era um homem bom, apesar de branco” (p. 30), decide deixar boa parte de suas terras para Prudência e os outros trabalhadores de sua fazenda, talvez em uma tentativa de existir através de um gesto de bondade, já que não vai conseguir existir através de futuras gerações, uma vez que “era um homem que gostaria muito de ter nascido mulher. Um homem que passou a vida sem poder ser o que realmente é.” (p. 31) 

Sobre os efeitos do racismo nas crianças, no conto “Victoria” conhecemos a história de uma mulher que graças ao Youtube, se depara com o poema “Gritaram-me Negra” da autora Peruana Victoria Santa Cruz, e enquanto se encanta com as palavras da autora, a mulher relembra um episódio de racismo sofrido por ela no período escolar. Após sofrer o ataque, vê sua mãe se agigantar ao exigir punição para os alunos na escola, e o modo com que Lilian Rocha escreveu a cena, por incrível que possa parecer, nos fez imaginar uma cena de filmes de aventura em que, através do posicionamento de câmera, aliado a um tipo específico de lente, faz o personagem ficar muito maior do que é, causando ao mesmo tempo espanto, respeito e admiração.

Se no início deste texto escrevi que muitos dos contos causam aflição e revolta, em “Espinha de Peixe” essa sensação se torna ainda mais desesperadora, pois os efeitos da violência contra a mulher são retratados como um ciclo de repetição e herança quando o protagonista, prestes a rever a esposa após uma medida protetiva, começa a relembrar os atos de violência sofridos pela sua própria mãe, cometidos pelo próprio pai. Este conto é particularmente desconfortável de se ler devido ao modo gráfico que a autora detalha os espancamentos cometidos pelo sujeito. Após perceber as raízes de seu comportamento tóxico, o protagonista decide cancelar a visita com a esposa e trabalhar seus próprios traumas.

Em última análise, Olhos de Azeviche: dez escritoras negras brasileiras em vinte contos é uma ótima opção para quem quer sair do lugar comum — homens brancos e heterossexuais que são lançados exaustivamente ano após ano como se fossem a nata da literatura nacional —, visto que a coletânea abraça e desenvolve o protagonismo negro com vários tipos de situações e cenários plurais.


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