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Savannah Knoop e a reflexão sobre autoria em “Garota, Garoto, Garota”

Aviso: Savannah Knoop, a autora de Garota, Garoto, Garota se identifica atualmente como “gender nonconforming”, mas à época descrita no livro usava pronomes femininos para se referir a si mesma, portanto, irei usar pronomes femininos para me referir a ela.

Escrito por Savannah Knoop — para contar o seu lado da história — e publicado originalmente em 2007, Garota, Garoto, Garota: Como me tornei JT LeRoy chegou ao Brasil pela Bertrand Brasil em 2021 como um híbrido entre memórias, autobiografia e ficção enquanto aborda não apenas uma épica trollagem literária, como também uma enorme quantidade de tópicos importantíssimos, entre eles identidade e disforia de gênero, transtornos alimentares, saúde mental e suicídio.

Os personagens principais desta história são Savannah Knoop, que dá vida a JT LeRoy, que por sua vez é uma criação literária de sua cunhada Laura Albert, e a diretora e atriz italiana Asia Argento, uma das líderes do Movimento #MeToo. Asia, que em 2018, aos 37 anos, teve a sua própria vida exposta ao ser acusada de ter assediado sexualmente Jimmy Bennett, então com 17 anos de idade. Parece que os livros escritos por Laura Albert (Como JT LeRoy) está intrinsecamente ligado à vida dos envolvidos, uma vez que Jimmy Bennett, então com apenas 7 anos de idade, interpretou o filho da personagem de Asia Argento em Maldito Coração, filme baseado em um dos livros de JT LeRoy.

Savannah Knoop como JT LeRoy e Laura Albert como Speedie, sua secretária. em 2003. Créditos: Matthew Peyton

Em 1999 Savannah era uma aspirante a estilista que sofria para pagar o aluguel. Sua cunhada, Laura Albert, era uma aspirante a escritora, que embora trabalhasse com tele-sexo, começou a escrever livros de ficção autobiográficos baseados na vida de JT LeRoy, um garoto adolescente trans, andrógeno, ex-garoto de programa que foi abusado sexualmente por sua mãe. Existe um porém: JT LeRoy não existe. Ele foi apenas uma criação da sua cunhada.

Alguns anos depois os livros começaram a fazer sucesso. Um sucesso que começa como cult, mas que rapidamente transforma JT LeRoy no queridinho do público e da crítica especializada. Atores e diretores consagrados começam a ligar e enviar e-mails para sua cunhada querendo comprar os direitos do livro para uma adaptação cinematográfica. Milhares de fãs começam a se sentir representados na escrita de LeRoy. Sintomaticamente, Laura precisa dar um rosto a LeRoy, uma vez que ele começará a dar entrevistas, participar de feiras literárias ao redor do mundo, programas de rádio, festivais de cinema, Cannes, etc., e para isso, ela chama Savannah Knoop para dar vida ao autor. Savannah, que não tem nada a perder, e imaginando ser apenas coisa de uma noite, aceita interpretar JT LeRoy, usando perucas loiras e enormes óculos escuros para proteger sua verdadeira identidade e ao mesmo tempo gerar burburinho acerca da androginia do autor.

Ainda que esteja seduzida pela fama, pelos presentes das marcas famosas, Savannah percebe que está intrinsecamente ligada ao personagem criado por sua cunhada. Suas vidas parecem não se distinguir. Ela sofre com crises existenciais, pessoais e corporais, não se alimenta, odeia seu corpo, odeia seu gênero, faz dietas malucas. Para piorar, enquanto interpreta JT LeRoy, ela se apaixona pela diretora que comprou os direitos do livro.

Savannah Knoop fotografada por Graeme Robertson

O problema é que com o sucesso dos livros de LeRoy, um dos maiores jornais norte-americanos começa a desconfiar da identidade do rapaz. Uma sensação de paranoia interminável se apossa de Savannah. Finalmente, após meses de medo e crises de ansiedade, toda a história verdadeira é publicada pelo jornal. O mundo inteiro descobre que LeRoy é uma farsa, que engana uma legião de fãs, editores, amigos, atores e diretores.

“Experiências vividas, sentidas e imaginadas, todas se combinam para construir nossa ideia de realidade. O firme limiar entre verdade e ficção é artificial e sempre vai dar poder a algumas vozes a abafar outras, não importa onde essa divisão seja feita” – Savannah Knoop

Acho curioso como Savannah inicia sua narrativa não pelo começo, mas, de certa forma, pelo fim, em uma pequena introdução onde ela nos mostra que na verdade está no set de filmagens de JT LeRoy, filme estrelado por Kristen Stewart, lançado em 2019, que foi baseado neste livro aqui sendo resenhado. Após estas páginas iniciais, saltamos diretamente ao passado, em uma das noites em que ela, vestida como JT LeRoy, está em um apartamento de hotel com Asia Argento. Neste capítulo recebemos pequenas doses da relação problemática de Savannah com seu próprio corpo, seu gênero, seus problemas relacionados à alimentação. Na sequência, cada capítulo funciona como pontos de paradas, como se estivéssemos em um livro que resultaria em um filme no estilo Road Movie

A aceitação corporal (ou sua falta) está presente muito mais do que questões relacionadas à identidade de gênero. Assim como Savannah, Laura Albert, também sofria com a sua aparência, bem como compulsão alimentar. Para termos uma ideia, Savannah compara Laura à uma leiteira holandesa em seu primeiro encontro com Laura. O que fica nas entrelinhas é que ambas as mulheres usam a persona de JT LeRoy — um sujeito magro, descolado, loiro, cool — como uma espécie de persona que seria muito mais aceita do que elas próprias. Mas o que fica evidente é que ambas as mulheres não se preocupavam com seus problemas relacionados com alimentação e saúde mental — elas sequer consideravam a questão um problema. 

Em última análise, é triste constatar que a origem dos problemas relacionados à comida, peso e corpo das duas mulheres teve início na infância graças a comentários gordofóbicos de suas próprias mães, que usavam o aumento do peso das filhas como ferramenta de dominação patriarcal.


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