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Literatura brasileira Literatura negra Poesia

A poesia ritmada de Juçara Naccioli em “Chão batido”

pru que uma moça tão bunita

com esse sofimento todo?

si assente nesse toco

tome vosso café

vô pegá uma vela banca

pa nóis rezá

vamo fazê uma oração

acabá com essa farta de ar

e acarmá esse coração

[…]

vóis ta sofendo de solidão?

sofa, não 

(Vela branca – Chão Batido)

Chão batido é o primeiro livro da escritora Juçara Naccioli, que foi finalista do Prêmio Off Flip 2019 na categoria poesia. O livro foi selecionado no Edital da Lei Aldir Blanc do Estado de Mato Grosso e foi publicado pela Editora Cálida em 2021. O prefácio escrito por Cristiane Sobral já anuncia o encantamento desse poemário singular com “eu lírico da preta velha, benzedeira e griô tecido com inteligência, generosidade, receitas e acolhimentos”.

Me chamou muito atenção a forma como a Juçara Naccioli experimenta e trabalha a linguagem nessa obra, que eu apostaria ser capaz de ganhar vários prêmios de poesia. Chão batido traz a oralidade da preta velha,  por meio do ritmo dos versos, das rimas, do léxico que é comum escutarmos quando vamos a um terreiro. 

Eu li esse livro de uma vez só porque a partir do momento que comecei, não consegui desgrudar da leitura, isso porque os poemas parecem se desenvolver de uma forma contínua e linear como se eles fizessem parte de uma mesmo dia de atendimento espiritual praticado pela preta velha. Parece um grande poema dividido em páginas. Aliás, é um livro que faz mais sentido se lido em voz alta porque a leitura é realmente uma experiência com a linguagem poética, escutando nossa própria voz lendo a voz da preta velha torna mais evidente ainda, a potência literária de Chão batido

Outro elemento que constrói a poética de Chão batido são as receitas de banho de ervas e pratos de cura receitados pela preta velha que se comunica com interlocutores diferente, ora está conversando com alguma mulher, ora com algum homem e ao se comunicar como em uma conversa, ela também nos conta um pouco do tempo em que era escravizada. O que ressoa em toda a poética do livro é ancestralidade.

sim, a nega entende

que fia tá falano

e vô dizê que

curpa é bola de ferro

que os fíi de terra tende a arrastá

com os dois pé

uns nem sabe que carrega

outros gosta de puxá

e outros já sabe lidá

pa quem carrega muita curpa

a cousa é procurá se ajudá

é cuidá de resorvê

que seja benzê

ou que seja nos carça branca dos dotô

mas num vivê pa sofrê

que a vida zinfía

num pode pará

nóis tamo aqui pa

sê feliz, se alegá

(Bola de ferro – Chão batido)

Além do uso das metáforas como no poema “bola de ferro” alguns poemas recebem os títulos de ervas que são muito presentes nos trabalhos de pretos velhos da umbanda. Chão batido é realmente uma imersão neste universo, também pelo vocabulário e pela prosódia que retomam o que a militante negra, professora e feminista Lélia González chama de pretuguês, e todos estes elementos são muito bem tecidos e costurados por Juçara Naccioli.

No final do livro tem uma intersecção com alguns poemas que não estão mais na voz da preta velha e é possível percebermos pela forma da escrita que muda radicalmente e descreve a Preta Velha, nos ajudando a construirmos poeticamente sua identidade:

Há anos enganchado ao pescoço 

A velha guia de sementes de nossa senhora 

Dançava leve e solto 

À frente do corpo miúdo e murcho 

Como batuta a dar ritmo às passadas 

A batuta era rápida demais o corpo curvado para frente 

Próximo ao setenta e cinco graus 

Lento demais 

Vestia-se de saia longa 

Camisa de botão 

Lenço na cabeça 

Para a proteção de sua ligação com o Alto 

As passadas curtas e arrastados 

Pouco se importavam 

Em chegar logo em qualquer lugar que fosse 

Rapidez já não era o seu objetivo 

Há muito deixou de ser 

O tempo ensina 

Que esperem os que têm pressa 

Plantas rasteiras orvalhadas 

Molhavam-lhe nos tornozelos e calcanhares 

Com isso leve sorriso nascia e um canto da boca 

O outro canto tinha por obrigação 

Assegurar que o velho cachimbo 

Não fosse ao chão 

Os olhos com meninas já meio esbranquiçadas 

Apertavam-se pela alegria de ver a farta plantação 

Das ervas sagradas plantadas por ela mesma

[…]

(Orvalhada – Chão batido)

Chão batido é um livro muito bem construído poeticamente, mas para além disso, trazer a voz de uma preta velha é muito forte e chegou para mim, particularmente, com uma carga afetiva muito grande porque eu comecei a frequentar os terreiros por causa de uma preta velha que pediu para uma amiga minha me chamar, e uma entidade que fez eu me sentir muito acolhida dentro dentro da umbanda foi um preto velho também, o vô Francisco. Este livro me fez lembrar disso, me fez sentir esses avós muito perto de mim ao ler os poemas em voz alta. Chão batido é uma experiência também sensorial.

Chão batido já é um dos meus livros favoritos de poesia. Eu não sou uma leitora tão assídua de poesia, contudo, esse livro me tocou muito e eu tenho vontade de ficar relendo e mostrar para todo mundo. Fiquei muito curiosa para ler outras obras da Juçara Naccioli. A Juçara é nordestina mas atualmente reside em Mato Grosso onde é professora, poeta integrante do Coletivo Maria Taquara – Mulherio das Letras – MT e no Coletivo Parágrafo Cerrado, além de atuar no teatro e audiovisual mato-grossenses. É o seguinte: se eu fosse vocês, procurava esse livro para ler e também anotava esse nome. A poesia da Juçara é potente demais, e tenho certeza que ainda escutaremos muito falarem sobre ela por aí. 


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1 Comentário

  • Responder
    Divanize Carbonieri
    15 maio, 2022 em 08:48

    Que análise maravilhosa, Mayra! Só agora estou vendo. E o livro da Juçara Naccioli realmente é fantástico. Fico feliz de ter feito essa ponte entre vcs. Bjs.

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