Literatura estrangeira

A sensualidade mórbida de “Mil Tsurus”, livro de Yasunari Kawabata

“Morrer é apenas uma forma de rejeitar a compreensão dos outros.” — Yasunari Kawabata.

Original de 1952, Mil Tsurus — publicado anteriormente no Brasil com o título de Nuvem de Pássaros Brancos — é um um romance do escritor japonês Yasunari Kawabata que chega ao Brasil pela editora Estação Liberdade e foi o livro do clube de assinatura Pacote de Textos. Na trama escrita de forma simples, mas com uma sensualidade onipresente em todos os seus cinco capítulos, somos levados para uma Tóquio devastada moral e culturalmente pela Segunda Guerra Mundial onde vive Kikuji Mitani, um rapaz solteiro de 28 anos que recebe frequentes propostas de possíveis casamentos arranjados por sua vizinha, enquanto tenta processar as emoções (ou a falta delas) resultantes das mortes recentes dos pais, sendo seu pai, o senhor Mitani, um homem sedutor e aficionado pela Arte do Chá Japonês.

Tóquio está sofrendo com um verão escaldante quando, em uma tarde bastante quente, Kikuji é convidado para uma Cerimônia de Chá na casa da senhora Chikako Kurimoto, que transformara os encontros (uma cerimônia datada do século 9) em um pretexto para arrumar maridos para suas pupilas — detalhe que simboliza a perda de valores tradicionais asiáticos em prol de costumes do Ocidente no Japão pós-Segunda Guerra Mundial. É neste cenário que somos jogados na vida do protagonista enquanto ele se envolve emocional e sexualmente com duas ex-amantes do pai, bem como com a filha de uma delas.

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De forma curiosa e interessante, Kawabata dá início à narrativa antes mesmo de situar o leitor com relação ao tempo e espaço, nos jogando in loco dentro de um monólogo interior onde o protagonista relembra episódios de mentiras, sexo e traições em sua família. Imediatamente somos informados que a senhora Chikako, na verdade é uma das ex-amantes do falecido senhor Mitani, pai de Kikuji, e através de um longo flashback somos levados à infância de Kikuji, que nos conta como ele flagrou Chikako nua com o pai. Ainda que a imagem da mulher nua tenha, de fato, ficado gravada em sua memória, outro detalhe corporal chamou-lhe a atenção: uma enorme mancha preta que começava no pescoço e terminava perto do umbigo da mulher.

De forma sintomática, a existência da mancha, juntamente com o fato de que ambos enganavam sua mãe, faz com que Chikako se torne a antagonista do romance — ao menos na mente de Kikuji. Sabemos também que o caso entre o senhor Mitani e Chikako foi breve, ao contrário da relação entre ele e a senhora Ota, que durou vários anos — detalhe que faz com que a senhora Ota seja alvo de comentários maldosos, geralmente feitos por Chikako. Adiante, ainda entra em cena Yukiko Inamura, uma pretendente de Kikuji, que, apesar de não aparecer muito na narrativa, é um personagem importante por simbolizar a pureza e os valores tradicionais japoneses — tão buscados e admirados pelo protagonista —, representados pelo seu Furoshiki, uma espécie de lenço de seda ilustrado com vários Tsurus datado do Período Nara. É sintomático, aliás, o fato de Kawabata ter escolhido um acessório popular durante o período em que o Japão era comandado por uma mulher (a Imperatriz Genmei, entre 707 e 715 d.C.) para simbolizar a pureza de uma mulher no seu romance — detalhe que demonstra uma preocupação do autor com os detalhes culturais e estéticos da história de seu país ao construir seus personagens.

Sem dúvidas estamos diante de uma obra especial, repleta de emoção, paixão e desejo, principalmente por se tratar de um romance relativamente curto. Sem perder tempo com a verborragia, o autor estabelece as relações, dinâmicas e sentimentos de (e entre) cada personagem em menos de 20 páginas. Graças a algumas dicas pontuais começamos a entender a natureza das relações de Kikuji com as amantes de seu falecido pai. Percebemos, também, indícios de uma forte atração sexual com uma delas — além de uma possibilidade de que a relação possa ser até mesmo incestuosa, graças a pequenos comentários do narrador acerca de detalhes corporais que diferenciam a senhora Ota e Fumiko, sua filha.

Todos os personagens, sem exceção, são seres solitários à procura de contato humano — mas que nem sempre pensam nas consequências de seus atos. E um exemplo claro deste comportamento tempestuoso — destrutivo em alguns momentos — são duas espécies mórbidas e indiretas de ménage à trois: primeiro, a senhora Ota, que ainda com desejos pelo falecido senhor Mitani, busca conforto no corpo de Kikuji, filho do sujeito; e segundo, quando Kikuji, que por sua vez, após uma tragédia envolvendo a senhora Ota, busca o corpo da falecida em sua filha, Fumiko, que, finalmente, aceita as investidas de Kikuji para poder se despedir da falecida mãe, ainda que seja através dos resquícios de seu corpo e de seu cheiro na mente, nas roupas e no órgão genital do protagonista.

Apesar de ter muitas qualidades, é preciso destacar o quão visual é o romance. Em determinado momento, por exemplo, o autor descreve o efeito do pós-gozo no corpo feminino “como a suave ondulação das águas do oceano” (p. 41). Adiante, temos uma espécie de Raccord literário (transição entre dois detalhes visualmente similares) quando, graças à descrição perfeita de uma cena, conseguimos visualizar em nossa mente uma continuidade visual onde a sombra de uma árvore se transforma lentamente na enorme mancha dos seios de Chikako — e sabendo que o romance já foi adaptado para o cinema duas vezes por dois mestres do cinema japonês (Reminiscence, em 1953 pelo diretor Kôzaburô Yoshimura, de estilo mais clássico; e Thousand Cranes, em 1969 pelo diretor Yasuzô Masumura, que como percursor do New Wave Japonês, possuia um estilo mais transgressor) seria desolador descobrir a ausência do momento citado acima nas duas adaptações.

Já o supracitado calor se transforma em um dos protagonistas do romance, e aqui é importante declarar toda a minha admiração ao autor que abusa de um detalhismo impressionante para escrever sobre o corpo e o odor feminino. O modo como Kawabata descreve o efeito do calor e da umidade nos personagens nos faz quase conseguir sentir seus cheiros. Este detalhe, aliás, me remeteu várias vezes a obras como A Streetcar Named Desire, de 1947, e Sweet Bird of Youth, ambas escritas pelo dramaturgo Tennessee Williams. Já a ambientação da casa do chá me lembrou do filme Rua da Vergonha, de 1956, que por sua vez foi baseado no romance Susaki no Onna, da escritora japonesa Yoshiko Shibaki.

Em última análise, Kawabata — ganhador do Nobel de Literatura em 1968, sendo o primeiro autor japonês a receber o prêmio — une elementos como sexo, sensualidade, luto, traição, calor e perda de valores orientais para nos contar uma história que apesar de ser simples e linear, nos prende em suas pouco mais de 170 páginas. Poucas vezes estive diante de um texto tão sensual sem ser necessariamente um romance erótico per se. Cada uma das subtramas trazem a solidão (resultante de mortes, lutos, ou até mesmo de noites de sexo) como ponto de partida para examinar de modo poético como cada personagem está lidando com suas emoções. 

Mil Tsurus é um romance sobre solidão, abandono e erotismo. Alguns dos personagens simplesmente decidem “ir embora” — sendo “ir embora” um eufemismo para várias ações, como por exemplo, o suicídio de determinado personagem ao não saber lidar com uma noite de sexo proibido; ou o desaparecimento de outro personagem, deixando o parceiro apenas a lembrança de seu cheiro. Aos personagens que ficam, como era de se esperar, resta a carga emocional do sentimento de culpa, da possibilidade de ser o causador daquelas mortes, daqueles abandonos e desaparecimentos.

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