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As aspirações libertárias de Nay da Gâmbia em “Lá fora cresce um mundo”, de Adelaida Fernández Ochoa

Publicado no Brasil em 2018 pela editora Papéis Selvagens com tradução de Francisco César Manhães​ como parte da coleção Archimboldi, Lá fora cresce um mundo, da escritora colombiana Adelaida Fernández Ochoa, é um romance histórico que trata do período escravocrata a partir região sul-ocidental da Colômbia pelas perspectivas de uma mãe e seu filho enquanto estes buscam por uma outra vida. 

Em Lá fora cresce um mundo acompanhamos a trajetória de Nay da Gâmbia e Sundiata da Gâmbia, que compartilham o sonho – que no caso de Sundiata, a princípio, por amor à mãe – de voltarem à África e deixarem para trás e para sempre os horrores da escravidão e de uma vida que não se quer, em uma terra distante, que não é sua. É a liberdade que move essa mãe. Para ela, “se a escravidão foi se construindo da África para a Nova Granada, a liberdade será recuperada indo de regresso”. Contudo, e como é de se esperar, este não é um objetivo fácil. A realidade é cruel e não traz garantia alguma. 

Nay da Gâmbia é uma mulher decidida e que não abaixa a cabeça para ninguém. Desde sempre muito firme, em uma tentativa de evitar degradações maiores, conseguiu em alto-mar ser comprada por Ibrahim Sahal, de quem ganhou a alforria no mesmo momento, mas para quem veio trabalhar, administrando a horta de sua fazenda. Apesar da carta que lhe confere a liberdade, Nay não tem dúvidas de que um pedaço de papel e a lei não asseguram uma liberdade real. Algo que nunca se permite esquecer por estar presente nas subjetividades das relações e do poder. Em terra, procura sempre por Sinar, pai de seu filho, mas em sua busca também encontra o afeto e a admiração de Candelario Mezú, guerreiro quilombola com quem cria vínculos. 

Já Sundiata é um rapaz pacato. Por determinação da mãe, por ela acreditar ser conveniente, passa a maior parte do tempo na fazenda grande, onde serve a seu amo das mais variadas maneiras. Nay da Gâmbia chega a ter a impressão de que Sundiata por vezes age como escravizado e isso molda seu pensamento, entretanto, na hora de partir e perseguir seu caminho, como também nos momentos em que uma postura mais forte se faz necessária,  não hesita. E mesmo com medo, encara o que vem pela frente.

Dividido por capítulos ora narrados por Sundiata, ora narrados por Nay,  Lá fora cresce um mundo traz em seu enredo as complexidades do que se é viver sob incertezas. Isso faz com que os protagonistas do romance se vejam no meio de experiências das mais distintas. Como por exemplo, quando Nay decide enterrar os corpos oriundos dos conflitos vivenciados pelo exército dos rebeldes – que teve apoio de quilombolas e libertos, por estes acreditarem que aqueles poderiam se juntar à sua causa pela abolição – a fim de procurar por Sinar.  

E por falar em abolição, este é um tópico que gera discussões interessantíssimas no romance. Enquanto Candelario Mezú e os que lutam ao seu lado pela liberdade crêem que ela deva ser conquistada por meio da lei, Nay da Gâmbia percebe as coisas de outra maneira. Para ela, a liberdade já é inerente a todos e os negros não precisavam de permissão para tê-la. Não se conforma que “onde a liberdade toma forma, só se entra pela mão de um branco”. As aspirações de Nay da Gâmbia são libertárias. Ela até joga com o que tem em mãos, mas, mais uma vez, por conveniência. Enquanto Candelario Mezú é aplaudido por acreditar que “a liberdade é vivida em plenitude entre os inventos do mundo, os barcos a vapor e a nova indústria. E a terra da escritura lavrada”, Nay da Gâmbia morde a sua língua “para não dizer aos gritos o que pensava: liberdade com apoio de leis também é uma liberdade de limites estreitos e sem escopo”. 

Lá fora cresce um mundo é um romance que segue os passos de Amada, de Toni Morrison, e Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves (com quem compartilha o fato de ter recebido o Prêmio Casa das Américas de melhor romance). Assim como as autoras destes, Adelaida Fernandéz Ochoa resgata um período histórico a partir da experiência de quem até outrora era apenas tratada como objeto secundário, mesmo estando no centro dos eventos que ocorreram em tal período. E se aquelas autoras imaginaram vidas possíveis para personagens reais – no caso de Amada, Margaret Garner, que inspirou Sethe, e de Um defeito de cor, Luísa Mahin, que inspirou Kehinde –, Ochoa resolveu fabular uma vida possível para uma babá presente em outro romance, María, publicado em 1867 por Jorge Isaacs. E assim como nos romances que o antecederam, Lá fora cresce um mundo subverte paradigmas, nos mostrando que só por se ter um ponto de vista diferente, a história, seja ela com agá maiúsculo ou não, pode ser enriquecida. Sem contar que essa subversão casa muito bem tanto com a construção que Ochoa faz de Nay da Gâmbia quanto com o ar libertário que rodeia a obra, fazendo de seu romance um ótimo exemplo de que a vida, mesmo que ela seja apenas fictícia, não está sujeita somente às mesmas narrativas.

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