Documentário

“Hughes’ Dream Harlem”: documentário aborda a relação de Langston Hughes com o Harlem

Hughes’ Dream Harlem. Ano: 2002.

Direção: Jamal Joseph. Roteiro: Darralynn Hutson, Jad Joseph e Jamal Joseph. Elenco: Amiri Baraka, Jad Joseph, Sonia Sanchez, Ruby Dee, Ossie Davis e Talib Kweli

Nota: ★★★☆☆

Dirigido por Jamal Joseph, Hughes’ Dream Harlem é um documentário feito para televisão sobre o poeta e romancista Langston Hughes — talvez a figura mais famosa quando pensamos no Renascimento do Harlem, ocorrido entre as décadas de 20 e 30 nos Estados Unidos —, bem como a sua relação cultural e literária com o bairro. Narrado pelo dramaturgo e poeta Ossie Davis, o documentário nos leva ao berço de centenas de intelectuais negros da época, além de, é claro, nos mostrar, através de várias entrevistas, um pouco da vida de Hughes.

Mesclando entrevistas, fotografias, danças conceituais, recriação de época e vídeos de brutalidade policial, Jamal Joseph nos mostra a casa onde Hughes viveu quando era criança — curiosamente — comprada por um homem branco, que, fã ávido do trabalho do autor, cuida e preserva todos os pertences de forma bastante metódica, inclusive os deixando do mesmo modo e nos mesmos locais onde ficavam originalmente. Um aspecto interessante que é perceptível durante toda a duração do documentário é a persona brincalhona e bem-humorada do autor, que gostava de fazer piadas com todos — exemplificada por uma dezena de fotos em que ele é sempre visto sorridente e feliz —, além de sua preocupação com a nova geração de autores e poetas.

Ao assistirmos as entrevistas — com nomes importantes como Amiri Baraka, dramaturgo e ativista; Sonia Sanchez, poeta e ensaísta; Ruby Dee, atriz mais conhecida por O sol tornará a brilhar, filme baseado na peça homônima de Lorraine Hansberry; Talib Kweli, rapper norte-americano; e o próprio Ossie Davis — podemos perceber como Hughes possuía uma mente brilhante e um coração do tamanho do Harlem, bairro onde vivia na época e acabou adotando como lar até o final da vida. E sua bondade e genialidade podem ser vistas no olhar dos entrevistados, que lacrimejam ao relembrarem a metodologia do autor com relação à arte — seja em forma de músicas, de poesias ou romances —, ou ao seu cuidado como mentor de jovens escritores e artistas. Para Hughes poesia e música precisam e devem estar sempre lado a lado independente do motivo inicial que origina a vontade ou necessidade de escrever.

Curiosamente, assim como ocorreu com Eu não sou o seu negro, documentário sobre James Baldwin lançado em 2016, a sexualidade de Hughes é deliberadamente deixada de fora do filme, causando um erro sintomático de continuidade histórico e pessoal — principalmente se levarmos em consideração o número baixíssimo de pensadores e intelectuais negros abertamente gays na história literária daquele país. Baldwin, inclusive, teria escrito duras críticas a Hughes, possivelmente por este deixar de abordar sua sexualidade de forma clara em suas obras. Por um lado, sabemos como é importante a presença de personalidades, artistas e intelectuais de grupos minoritários sendo abertamente e orgulhosamente queers; por outro lado, se pensarmos no contexto da década em que Hughes vivia, a homossexualidade era considerada um crime. Logo, é preciso levar em consideração o perigo que ele enfrentaria enquanto negro e gay vivendo em um país abertamente racista e homofóbico.

Outro ponto negativo são as “recriações” da época, onde um autor interpreta Hughes enquanto anda pelo Harlem. Essas sequências, apesar de serem costumeiras — em documentários onde o acervo com imagens da pessoa ou assunto abordado não é suficiente para uma longa duração — acabam quebrando a fluidez da narrativa com o passar do tempo, principalmente devido ao tom sépia escolhido pelo diretor, que destoa totalmente da fotografia usada nas entrevistas onde intelectuais, músicos, atores e amigos relembram a carreira do autor.

Apesar de algumas derrapadas, o diretor Jamal Joseph toma algumas decisões importantes, como por exemplo a impactante sequência onde ele mescla a leitura de um poema de Hughes sobre brutalidade policial ao mesmo tempo que um bailarino negro dança de forma solitária enquanto sua imagem é lentamente engolida por videos de linchamentos de pessoas negras vítimas das leis de Jim Crow — que impunham a segregação racial dos Estados Unidos. Para finalizar, apesar de estar longe de ser um documentário perfeito, Hughes’ Dream Harlem é uma ótima opção para quem deseja conhecer um pouco mais do poeta, até que seu livro O Homem Negro Fala e Outros Poemas seja publicado no Brasil pela editora Pinard. O livro em está em campanha para financiamento coletivo até o dia 21/07/2022. Faça o seu apoio e contribua com esse publicação no Brasil.

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