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As mulheres de “Solitária”, de Eliana Alves Cruz

Solitária, de Eliana Alves Cruz, publicado pela editora Companhia das Letras em 2022, conta a relação de Eunice, empregada doméstica que trabalha em um condomínio de luxo, e a filha Mabel, que quando criança, por não ter com quem ficar, tem de acompanhar a mãe em seu trabalho.

O livro se divide em três partes, como observamos em outras obras contemporâneas elogiadas pela crítica, como Torto Arado de Itamar Vieira Junior e A vegetariana de Han Kang. A primeira parte do livro é narrada por Mabel que apresenta a relação entre ela e a mãe; um crime que aconteceu no condomínio Golden Plate; sua primeira ida ao apartamento de D. Lucia e também os outros personagens da narrativa como o seu Tiago, o patrão, Bruninho, a criança que sofre um acidente durante uma festa, Irene, a babá menor de idade que é culpabilizada por isso, Jurandir, o zelador do prédio e seus filhos, Cacau, muito estudioso e inteligente e João Pedro, muito questionador. Logo nas primeiras páginas, já é perceptível a precisão narrativa de Eliana Alves Cruz, um anúncio de que será impossível soltar o livro antes de chegar até a última página.

Temporalmente a narrativa se desenvolve a partir da década de 90 quando Mabel ainda era criança, até o fim do ensino médio quando ela e Cacau tiraram ótimas notas. Sob o ponto de vista de Mabel, sabemos que ela e D. Lucia tem um segredo e já nessa primeira parte do livro, fica evidente o quanto a família de D. Lucia explora as pessoas que trabalham naquela casa e naquele condomínio. Mabel conta com um olhar crítico o cotidiano de Golden Plate, um condomínio de luxo que em sua estrutura reproduz em grande medida a divisão entre casa grande e senzala, senhores e escravizados. Um tipo de condomínio, aliás, comum nos bairros ricos de um Brasil que ainda respira as marcas da escravização. Assim, Solitária nos mostra a condição das empregadas domésticas do Brasil que passam uma grande parte de suas vidas tendo que trabalhar servindo famílias ricas, sem tempo para dedicar à sua própria família. 

A segunda parte do livro nos aproxima ainda mais desta realidade porque é narrada pela própria Eunice, mãe de Mabel. Eunice traz em sua perspectiva, um olhar diferente para alguns episódios narrados por Mabel e os episódios que conta aprofunda a relação entre mãe e filha já posta em cena, abordando a experiência com a maternidade e a relação com sua própria mãe que tinha uma consciência sobre a escravização e a exploração do trabalho doméstico.

Ao mostrar a trajetória de mulheres de três gerações diferentes, Solitária nos faz lembrar que embora o Brasil tenha passado por mudanças, a estrutura social de desigualdade e o racismo se perpetuaram ao longo dos anos. Uma camada muito bonita que aparece na narrativa de Eunice é a relação com a ancestralidade que vai passando de mãe para filha. A fé, o cuidado com as ervas são fios que entremeiam o livro como um todo. 

Eunice também conta sobre a sua relação com o pai de Mabel. Ainda que este não seja o foco do livro, Solitária aborda também o abandono paternal, trazendo uma sugestão de que as condições financeiras e sociais definem também as condições afetivas dos indivíduos. A voz de Eunice é bastante sensível porque entendemos quais os outros vínculos, além do financeiro, que mantém as empregadas domésticas em condições subalternas. Ao longo da narrativa, com a ajuda de Mabel, Eunice vive uma tomada de consciência sobre sua condição e quais mudanças devem ser necessárias em sua vida.

Outra camada bonita da relação entre mãe e filha, que também me parece uma homenagem da autora Eliana Alves Cruz às outras mulheres negras que abriram caminho para o empoderamento das mulheres negras, como Conceição Evaristo, são as escritoras e as ideias que Mabel apresenta à mãe e que na narração reverberam nessa tomada de consciência de Eunice sobre sua condição. Esse diálogo aparece também nos nomes de alguns capítulos do livro, como é o caso do capítulo “Quarto de despejo” em referência à obra de Carolina Maria de Jesus.

Já na terceira parte do livro, as vozes que narram são os quartos por onde passam as personagens, quarto de empregada, quarto de porteiro, quarto de hospital e quarto de descanso. Todos os capítulos do livro, aliás, seguem a linha do título Solitária pois se trata de espaços ou objetos domésticos. O título do livro, me soa interessante ao articular um duplo sentido entre o espaço das menores celas que existem nas cadeias, o quartinho de empregada e a sensação de Eunice e Mabel em muitos momentos da narrativa. Ainda que estando em uma “solitária” ou vivendo muitas vezes sob uma sensação de solidão, ocupando um espaço pequeno e restrito, essa condição não impede Mabel e Eunice de enxergarem outros horizontes. Eu diria que esse livro, chega a ser esperançoso.  

Para além da preciosidade estética, Solitária, passa ainda pelo debate das cotas raciais nas universidades públicas, e em seu final, se conecta ao contexto da pandemia. Uma obra muito atual e notável da literatura contemporânea. Fiquei com muita vontade de ler outros livros da Eliana Alves Cruz. A gente fica meio assim de dizer sobre melhores e piores leituras, estou sem vergonha para assumir, no entanto, que considero Solitária, um presente literário de 2022, muito pode ser dito sobre esta obra que merece ser lida e discutida.

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