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    Ficção Literatura negra Romance

    “Maud Martha”, único romance da poeta Gwendolyn Brooks

    capa do livro "Muad Martha", de Gwendolyn Brooks.

    “Ser estimada era o desejo mais caro do coração de Maud Martha Brown” — Gwendolyn Brooks

    Quando Gwendolyn Brooks publicou seu primeiro e único romance, intitulado Maud Martha, ela já era uma poeta consagrada e com feitos impressionantes — entre eles, ser a primeira autora negra a receber o Prêmio Pulitzer de poesia, por Annie Allen, publicado em 1949. Atualmente considerada uma das vozes negras mais influentes do século XX, ainda que praticamente desconhecida fora dos EUA, e uma pioneira na representação da experiência mundana das comunidades negras nos Estados Unidos, Brooks prima pela habilidade de combinar o cotidiano bucólico de pessoas negras comuns que vivem em guetos com um lirismo poético ao construir momentos sublimes pautados por uma linguagem acessível enquanto aborda questões complexas relacionadas à identidade negra.

    Publicado em 1953, entre obras como O Homem Invisível, de Ralph Ellison e Go tell it on the Mountain, de James Baldwin — o que talvez explique a indiferença dos críticos literários negros da época —, Maud Martha é um romance silencioso sobre a raiva, sobre o racismo internalizado, e sobre os efeitos do colorismo em crianças negras. Ao mesmo tempo, o romance também é bem-humorado, irônico, vibrante e repleto de momentos singelos que farão o leitor repensar suas prioridades e devorar a obra o mais rápido possível.

    Esta pequena jóia esquecida pode ser classificada como um romance de formação no estilo “coming of age” que vai contar o desabrochar para a vida adulta de Maud Martha Brown, uma jovem negra de pele escura que vive em Chicago nos anos 1920, mas que anseia pela vida agitada e intelectualmente efervescente entre os artistas do Renascimento do Harlem em Nova York. Vamos acompanhar sua vida da infância à meia-idade — no auge político dos Movimentos pelos Direitos Civis e do Movimento Black Power. Em outras palavras, Maud Martha construirá sua identidade enquanto mulher negra entre dois períodos importantíssimos na cultura e política negra — curiosamente batizado como “Geração Indigna” pelo escritor Lawrence Jackson, que argumenta que devido à importância política dos dois movimentos, todas as décadas entre eles foram negligenciadas culturalmente.

    Com vislumbres em diferentes classes sociais, Brooks transforma os 34 pequenos capítulos em sublimes micro-biografias diárias de sua protagonista, de sua família, e também de uma vasta quantidade de vizinhos, e através destas vinhetas cotidianas cheias de vontade própria, seremos inseridos em um labirinto que tem como principal função ilustrar o dia a dia de Maud Martha, seus pensamentos e devaneios, e por conseguinte, a existência negra da classe trabalhadora norte-americana nas décadas anteriores à WWII — detalhe, aliás, que como explicarei adiante, dialoga diretamente com a história de vida da autora.

    Quando a narrativa tem início, encontramos Martha aos 7 anos de idade, lutando para ser notada, e devido à pele escura nesta tenra idade a pequena já sofre diariamente com os efeitos do colorismo — inclusive dentro de sua própria casa: considerada feia por todos, e preterida pelo pai e o irmão, que dão mais atenção à Helen, sua irmã de pele mais clara, Maud Martha possui em sua mãe o mais próximo que ela poderia chamar de amizade verdadeira. Enquanto anseia pela chegada de uma vida adulta intelectualmente rica em Nova York, ela passa seus dias debruçadas nos livros, e devido a sua introspecção ela acaba desenvolvendo uma habilidade curiosa relacionada ao seu status de irmã outsider, que é ser colocada, ainda que contra sua vontade, em um lugar que a permite perceber de fato quem as pessoas são quando elas acham que ninguém está olhando, e este aspecto é explorado de forma impecável pela autora. 

    De imediato notamos o modo atencioso como Gwendolyn Brooks descreve os detalhes do ambiente em que a história está momentaneamente ocorrendo, de modo que não é incomum nos depararmos com longas descrições com cores de tijolos, paredes de escolas, decorações de interiores — uma opção que fornece ao leitor as ferramentas necessárias para a sua própria construção geográfica e estética do bairro onde Maud Martha vive com sua família. Essas longas descrições, por incrível que possa parecer, estão longe de destoar da economia da prosa nos demais momentos. Pelo contrário, elas se empurram, se misturam e formam uma estranha combinação inesperada, porém perfeita — tal qual os personagens que perambulam entre as ruas apertadas dos guetos em que a narrativa acontece.

    Personagens, aliás, que funcionam quase como antepassados de outros personagens criados por artistas posteriores à Gwendolyn Brooks. Em determinados momentos, por exemplo, podemos especular se o romance serviu de influência — direta ou indireta — a artistas de diferentes esferas, como por exemplo, Spike Lee, mais precisamente em seu clássico “Faça a coisa certa”, de 1989, em que podemos notar semelhanças entre o modo como ambos Brooks e Spike Lee decidem nos mostrar o modo como os dias ocorrem nos seus respectivos bairros — inclusive e principalmente, através da dinâmica entre os personagens Sra. Snow e Sr. Neville, de Maud Martha, e a Sra. Mother Sister e Da Mayor, interpretados por Ruby Dee e Ossie Davis na obra de Spike Lee.

    Gwendolyn Brooks nas escadas de sua casa em 1960. Foto de Slim Aarons/Getty Images. Reproduçao.

    Saindo da sala de cinema e retornando à literatura, podemos notar semelhanças entre As Mulheres de Brewster Place, soberbo romance de Gloria Naylor, ou O Olho mais Azul, de Toni Morrison, principalmente nas semelhanças entre Maud Martha e Pecola Breedlove, ou, mais recentemente, o romance Um outro Brooklyn, de Jacqueline Woodson — também um coming of age que ocorre antes e depois da WWII —, cuja prosa poética sucinta, nos remete diretamente ao estilo utilizado por Brooks para biografar sua protagonista. É importante ressaltar que assim como as obras citadas acima, Maud Martha também aborda temas como racismo, homofobia, linchamentos e soldados com Transtorno de estresse pós-traumático — com a única diferença de que Gwendolyn Brooks usa uma abordagem mais leve e quase que nas entrelinhas para debater tais questões.

    De modo orgânico somos levados da infância à adolescência e à vida adulta de Maud Martha — que agora encontra-se em um casamento sem amor com Paul Phillips, um negro de pele clara que apesar de fazer o possível com as migalhas que a sociedade norte-americana joga em sua direção, e milagrosamente conseguir alimentar sua família, está longe de ser o marido que Maud Martha merece: em primeiro lugar o sujeito não possui a sofisticação e o senso cultural e estético de sua esposa; em segundo lugar, ele sequer a considera bonita, desejável e digna de seu amor. Em outras palavras, Paul é um homem negro de pele clara obcecado por mulheres brancas. Ainda assim, Maud Martha possui a consciência de não transformá-lo em um vilão, principalmente quando, durante a Guerra, ela precisa começar a trabalhar — decisão que a coloca como subalterna de pessoas brancas, a fazendo passar por algumas das humilhações que o marido passou durante a vida adulta — e a valorizar todos os esforços feitos por ele para que não faltasse comida para ela e sua filha. 

    Podemos entender o casamento do casal como uma prisão mútua: Paul se vê preso à uma mulher negra que ele não ama, e Maud Martha se sente presa a um homem que está abaixo de suas expectativas românticas e intelectuais. Mas por qual motivo eles continuam juntos, mesmo antes do nascimento de sua filhinha — um acontecimento que em teoria seria o que os impediria de tentar a felicidade em outros relacionamentos? Uma das minhas teorias pode ser o fator autobiográfico do romance, principalmente a oposição de Gwendolyn Brooks a relacionamentos interraciais em sua vida pessoal, já que a autora era da opinião que relacionamentos interraciais acabariam lentamente com a existência negra. Não sei se considero correta a minha linha de pensamento a seguir, mas considero que forçar Maud Martha e Paul em um relacionamento sem amor foi um golpe baixo de Brooks — quase como se ela estivesse impondo a sua opinião pessoal em seus personagens, o que em última instância, está longe de ser um problema, e na verdade apenas contribui para que o romance se torne ainda mais rico e multifacetado. 

    Ao ler constantemente sobre o sonho de Maud Martha em viver uma vida intelectualmente estimulante, e sobre a possibilidade de ela nunca poder vivenciar tal sonho, acabei fazendo um exercício de memória literária: será um dia permitido às pessoas negras simplesmente viverem sua intelectualidade, e apenas existirem sendo pessoas extremamente inteligentes, de classe média que passam suas noites em casas aconchegantes debatendo literatura, cinema e poesia? Faça uma busca em sua estante e tente lembrar: quando foi a última vez que você se deparou com personagens negros que se encaixariam na descrição acima? Como sabemos, este tipo de romances foram e ainda são escritos e reescritos à exaustão por autores brancos ao longo dos séculos, mas, curiosamente, aos autores negros, parece ser proibido tal arquétipo de personagens, já que eles são praticamente inexistentes. 

    É irônico e, ao mesmo tempo, trágico, o modo e a data em que Gwendolyn Brooks encerrou o romance: o primeiro deles pode ser entendido como uma ironia tragicômica, visto que ao fim do romance o Movimento Black Power estava prestes a surgir, e com o lema “Black is Beautiful”, Maud Martha, possivelmente pela primeira vez em sua vida, teria a oportunidade de perceber sua própria beleza enquanto mulher negra, quando todos ao seu redor a fizeram acreditar no contrário. O segundo, que considero o mais trágico de todos, é o modo nietzschiano que Brooks inicia e finaliza a narrativa: a obra tem início em 1920, apenas um ano depois do “Motim Racial de Chicago”, ocorrido naquele que ficou conhecido como “O Verão Vermelho”, que aconteceu devido às crescentes tensões relacionadas à grande migração de negros do sul rural para as cidades do norte durante a Primeira Guerra Mundial. O motim foi o resultado do afogamento de um adolescente negro chamado Eugene Williams, que morrera no Lago Michigan após violar a segregação das praias de Chicago e ser apedrejado por um grupo de jovens brancos. Vale lembrar que na época os linchamentos de pessoas negras estavam em seu auge e eram acontecimentos corriqueiros; por fim, nas últimas páginas, Brooks faz um [eterno?] retorno ao tema quando cita os últimos linchamentos ocorridos na Georgia e no Mississippi, construindo uma rima visual devastadora com os veteranos negros recém chegados da guerra, que por sua vez era uma espécie de linchamento em massa de homens negros que escolheram o campo de batalha justamente para escapar dos linchamentos que sofriam em seu próprio país. 

    Em última análise, agridoce seria meu modo mais sincero de classificar Maud Martha (Companhia das Letras, com tradução de Floresta), pois sentimos uma leveza que permeia toda a narrativa, mas que vai totalmente na contramão de alguns dos temas que Gwendolyn Brooks explora com a proeza de uma romancista experiente — apesar de ser seu primeiro romance. Já Maud Martha Brown pode ser considerada uma das mais belas e interessantes protagonistas já criadas não apenas no contexto da literatura negra, mas na literatura norte-americana como um todo. Ao seu modo, ela é cheia de vida, com amores e sonhos impossíveis pulsando dentro do peito, apenas esperando a oportunidade para um dia explodir, para amar e ser amada como ela sabia, em seu mais profundo poço de sentimentos, que ela deveria ser. 

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