“Contos de cidadezinha”: a expansão do universo ficcional de Ruth Guimarães

Enquanto escrevo este texto, ou seja, em algum momento entre dois mil e vinte e cinco e dois mil e vinte e seis, Dona Ruth Guimarães segue sendo uma das maiores — se não a maior — escritoras brasileiras que ainda não receberam a devida atenção. Quadro que vem mudando bem aos poucos, é verdade, mas que deveria ser outra realidade há muito tempo. Sua obra mais famosa, Água funda (Editora 34), é daqueles romances que, como poucos, põem quem o escreveu no panteão da literatura. Trabalho precioso, cujo estilo e enredo são primorosos. Era para tratarmos dela como tratamos Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e qualquer outra ou outro gigante que possa vir à mente de você que me lê. Revoltante, sem dúvidas, e digo isso sem medo de soar passional. Contudo, esse é um sentimento que não quero que perdure por estas palavras. 

Pois bem: por se tratar de seu trabalho mais popular, Água funda é, desde dois mil e dezoito (pois é, ontem), com sua edição mais recente — a descontar a da Tag, publicada pela mesma editora — livro de fácil acesso. Qualquer livraria brasileira que se preze tem pelo menos uma cópia em seu acervo. Porém, não podemos falar a mesma coisa de seus outros títulos. Até pouco tempo, a dificuldade de encontrá-los era tremenda. E de certo modo, ainda o é: apesar de não ser mais impossível, às vezes a tarefa é árdua. Antes precisávamos de sorte, agora, um pouco de esforço. E digo isso porque, ao contrário de seu romance, que fora publicado por uma editora que se não grande, é ao menos bem estabelecida, conhecida e celebrada, suas outras obras estão espalhadas por casas bem pequenas: Primavera Editorial, Faro Editorial e Madamu. E foi justamente esta última que resgatou o livro que trataremos aqui: Contos de cidadezinha, publicado por ela em dois mil e vinte e três — embora só tenha começado a vê-lo circular por aí um ano depois. Para se ter uma ideia, eu, que além de grande admirador, sou também pesquisador (por ora em período sabático, risos) da obra de Dona Ruth, passei anos caçando a primeira edição de Contos de cidadezinha, publicado pelo Centro Cultural Teresa D’Ávila, em 1996. Sempre atento aos sebos e constantemente monitorando a internet, finalmente consegui uma cópia em dois mil e vinte e dois, salvo engano. E não foi barata não, além de ter levado bastante tempo e não ter sido nada fácil. Ao publicá-lo, a Madamu faz um trabalho importantíssimo.

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Segundo Joaquim Maria Botelho, filho de Dona Ruth, Contos de cidadezinha é a obra-prima de sua mãe (Costa, 2020), o que, pessoalmente, e com todo o respeito, discordo. Contudo, a qualidade literária que é esperada de uma autora de sua magnitude se faz, sim, presente no livro, no qual, mais uma vez, a vida interiorana e caipira, com seus casos e causos, dos mais singelos aos mais deslumbrantes — nem que seja apenas para aquelas personagens que os vivem — são temas. Mas se em Água funda o trabalho de linguagem é mais laborado, aqui, ao menos me parece, houve uma outra preocupação por parte da autora. 

Não me entendam mal: Dona Ruth não foi uma escritora que se permitia o desleixo. Há, sim, cuidado de sua parte. Mas para quem conhece bem o trato que ela deu às palavras em sua obra maior, não tem como não se atentar a esse aspecto. Dito de outra forma, aqui ela se debruça mais sobre o enredo do que sobre a engenhosidade estilística. E essa escolha formal é bem interessante, pois dá força aos contos dessa coletânea. Esse protagonismo da narrativa evoca tão bem o clima de uma cidade pequena, nos pondo de modo bem íntimo no texto, como se estivéssemos ouvindo uma fofoca, um cochicho ou até mesmo prestando atenção na vida alheia. O que, no fim das contas, reforça a impressão de que o que a autora queria com esses contos era lançar luz sobre a vida cotidiana e simples de quem vive no interior, tendo nas personagens, tão marcantes, um ótimo espelho. 

Contos de cidadezinha não só confirma Dona Ruth como a escritora maiúscula que foi, como guarda em si algumas histórias que têm tudo para figurar não só o cânone do gênero em nossa literatura como também o imaginário popular. E isso é perceptível logo no conto de abertura do livro, “Visão”, no qual a personagem central, Malaquia, é um velho cego que, abandonado, não cansa de clamar por sua esposa, Maria, já tão inalcançável a ele. Sua situação comove a muitos, como as freiras de sua comunidade, e o desenrolar de sua história parte daí. É também o caso do conto “No dia que deu a cobra”, no qual a fé inabalável naquilo que acredita, seja lá por quê, faz companhia à violência doméstica, tão naturalizada — fruto da ideia fixa que acometeu Tunica, jogando no bicho todo o pagamento do marido, pois não tinha dúvidas de que bicho daria. Sua impulsividade fez com que seu marido, Mamede, que jamais ralhou-lhe um dedo, mudasse da água para o vinho. Eventos esses que deixaram a vizinhança em polvorosa.

A maneira como Dona Ruth trata o singelo e o cotidiano que permeia e circunda a vida do povo que busca retratar é quase mágica. Se não o for de verdade. E digo isso por conta do encanto que sua voz narrativa evoca. As imagens que a autora cria têm um tom bastante familiar. Sobretudo a quem tem experiências de vida em cidades menores, onde todos se conhecem, mesmo que só de vista. Sensação que ganha mais força quando, ao longo dos contos, nos damos conta de algumas conexões que nos fazem perceber que todas essas histórias são interconectadas, nem que seja por apenas se ambientarem no mesmo território. Ainda pensando nesse encanto, a poética presente nas narrativas, como no sensível “Figueira marcada”, em que acompanhamos um homem que, dando vazão à sua raiva, decide cortar a enorme figueira do pasto, com um desdobramento alegórico, ou no longo “Os castiçais de Santo Antônio”, no qual a culpa cristã se faz presente, trazendo um ar dostoievskiano ao texto, encorpam, pelo belo e pelo trágico, o caráter fabuloso, ainda que calcado ao rés do chão, que envolvem as histórias que Dona Ruth narra no livro.

Contos de cidadezinha expande o universo ficcional de Dona Ruth Guimarães. Não só por continuar o seu projeto literário, que busca na vida caipira a sua fonte inesgotável, mas também por ampliar os assuntos que a autora traz à baila, como as dinâmicas raciais, que se fazem mais perceptíveis aqui do que em Água funda. No mais, recomendo a leitura da resenha crítica “A faceta contista de Ruth Guimarães em Contos de cidadezinha” (2024), da poeta e pesquisadora Júlia Batista B. Farias, na qual ela se dedica de maneira bem mais minuciosa e rente ao texto do que fiz aqui, alargando mais ainda a percepção desses contos e contribuindo imensamente para a fortuna crítica em torno da obra da autora, e para quem “o humor ruthiano em muito agrega força ao livro, haja vista que muitas das histórias têm um forte caráter anedótico, elaborado de maneira sofisticada, dispondo de um discurso narrativo que o tempo todo intercambia o trágico e o cômico” (Farias, 2024, p. 434), o que assino embaixo.

Referências bibliográficas:

COSTA, Claudia. Livros inéditos de Ruth Guimarães vão ser lançados neste ano. Jornal da USP, 19 de junho de 2020. Disponível em: https://jornal.usp.br/cultura/livros-de-ruth-guimaraes-vao-ser-relancados-neste-ano/. Acesso em 20 de setembro de 2025. 
FARIAS, Júlia Batista Bernardes. “A faceta contista de Ruth Guimarães em Contos de cidadezinha”. In: Opiniães, n. 25, jul./dez. p. 426-435, 2024. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/opiniaes/article/view/228011. Acesso em 20 de outubro de 2025. 
GUIMARÃES, Ruth. Água funda. São Paulo: Editora 34, 2018.

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Maria Ferreira

Maria Ferreira é uma mulher negra baiana. É criadora do Clube Impressões, o clube de leitura de livros de ficção do Impressões de Maria, e co-criadora e curadora do Clube Leituras Decoloniais, voltado para a leitura e compartilhamento de reflexões sobre decolonialidade. Também escreve poemas e tem um conto publicado no livro “Vozes Negras” (2019). É formada em Letras-Espanhol pela Universidade Federal de São Paulo. Seus principais interesses estão relacionados com temas que envolvem literatura, feminismo negro e decolonial e discussões sobre raça e gênero. Enxerga a literatura como uma ferramenta essencial para transformar o mundo. 

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