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Literatura estrangeira

Colonização disfarçada de aventura em “Cinco semanas em um balão”

Minha origem como leitor teve início aos 11 anos graças a gêneros como terror e aventura. Àquela época, minhas tardes eram exatamente iguais: debruçado na coleção Vaga-lume, devorando uma história por dia. Perdi as contas de quantos livros daquela coleção eu li, mas o que ficou comigo desde então foi meu amor pelos dois gêneros citados acima. Portanto, foi com um misto de memória afetiva, saudade e apreensão que comecei a ler essa edição de Cinco semanas em um balão. Meu gosto literário teria mudado? Será que eu conseguiria ignorar os problemas relacionados ao racismo que são tão recorrentes em obras do tipo, e que passaram despercebidos quando eu tinha 11 anos? A resposta mais curta? Não. Não consegui ignorar que em determinado momento, por exemplo, o autor compara um grupo de africanos que dançava alegremente a macacos. Infelizmente momentos como o anterior não são casos isolados, pois sabemos que na maioria das vezes, os autores, famosos por esse tipo de literatura, geralmente são brancos. Logo, narram as aventuras de colonizadores brancos e europeus — sempre os retratando como heróis inteligentes e sofisticados, restando o papel de selvagens ao povo africano que estava em sua terra, vivendo sua vida em paz, e aqui não é diferente.

Lançado em 2020 pela Principis, com tradução por Frank de Oliveira, o primeiro romance de Jules Verne (mais conhecido no Brasil como Júlio Verne), Cinco semanas em um balão, de 1863, é uma aventura irregular sobre 3 amigos exploradores que, com a desculpa de que precisam descobrir o local exato da nascente do rio Nilo, embarcam em um balão e evidentemente passam por diversas situações de perigo em vários países africanos no decorrer de, bem… cinco semanas. Não custa nada lembrar, a propósito, que se eles encontram algum tipo de perigo, os responsáveis são ninguém menos do que eles próprios. De qualquer forma, como era de se esperar quando alguém resolve interferir na vida de animais selvagens, os protagonistas são atacados por leões, crocodilos, cobras, rinocerontes, etc. O resultado? Uma irritante quantidade excessiva de animais mortos simplesmente porque os protagonistas sentem vontade de usar suas armas. Felizmente, em determinado momento, o ato de caça sem a finalidade de alimentação é proibido pelo piloto do balão, o Doutor Samuel Fergusson. Os protagonistas são estereótipos ambulantes: o já citado Samuel Fergusson é um cientista renomado e taciturno de poucas palavras (mas que não perde a oportunidade de objetificar as mulheres africanas, mesmo que do alto de seu balão); Joe é seu fiel ajudante e só existe na história para servir de exposição sempre que o autor se sente obrigado a narrar as façanhas de exploradores de outrora, como se fossem heróis. Um dos adorados e aclamados por Fergusson é Francis Burton, notoriamente famoso por seus escândalos sexuais durante suas explorações, entre elas, uma no Brasil em 1865, quando ele participou de uma expedição de canoas da nascente do Rio São Francisco até as cachoeiras de Paulo Afonso. Suas práticas nada ortodóxicas consistiam em medir o tamanho dos órgãos genitais dos homens das tribos por onde passava, o que demonstra perfeitamente que a objetificação do homem negro já existia naquela época. Chegamos então a Richard Kennedy, um caçador profissional que pode ser considerado como o personagem menos interessante da história: sedento por violência, gosta de resolver o mais simples dos problemas com sua espingarda.

Júlio Verne

Por mais incrível que pareça, e apesar de todos os problemas citados acima, tanto na índole dos personagens como em suas construções, o romance, se analisado puramente no aspecto da aventura acaba sendo não só eficiente como emocionante de fato: os personagens são alvos de tempestades, raios que cortam os céus, elefantes desgovernados, macacos assassinos, etc. Para minha surpresa, acabei me emocionando com as aventuras e com a vida de Joe, que por se tratar do mais humilde do grupo, ganha uma carga emocional quando é ele quem corre perigo. Sentimos que somente ele merece sobreviver no final da história. 

Infelizmente o que me afastou do romance foram as desnecessárias mortes de animais. Em determinado momento, por exemplo, um elefante é morto apenas para servir de jantar para os protagonistas, que não obstante, comem apenas um pedaço da perna do animal. Esse aspecto relacionado ao ato da caça, foi o que me afastou da obra de Ernest Hemingway há mais de 15 anos. Simplesmente não consigo ver a caça esportiva como diversão, seja ela na vida real ou na literatura.

Apesar de serem retratados como selvagens durante toda a aventura, os personagens africanos presentes na história — ao menos os que recebem os protagonistas em suas tribos — são bem mais humanos, educados e receptivos do que o homem branco, considerado (por ele mesmo, evidentemente) como a raça mais dotada de inteligência no planeta.

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1 Comentário

  • Responder
    Aline
    27 maio, 2021 em 21:12

    Muito bom! Parabéns, pela resenha!

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