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“Trapaça no Harlem”, de Colson Whitehead, e a literatura policial bem-humorada

“Se alguém te ajuda por acidente, continua sendo uma ajuda.”

Colson Whitehead

Após vencer o Prêmio Pulitzer de Ficção em 2017 com The Underground Railroad: Os caminhos para a Liberdade — considerado pela crítica especializada um dos melhores romances do século 21 —, e repetir o feito em 2020 com seu romance seguinte, o aclamado O Reformatório Nickel, Colson Whitehead decidiu retornar à ficção histórica com uma narrativa definitivamente mais leve se comparada às suas duas obras anteriores. Se em The Underground Railroad o autor contava uma épica jornada de ficção histórica sobre um casal de escravizados em busca de liberdade na Georgia no século 19; em O Reformatório Nickel, o autor embarcou em uma história de investigação sobre funcionários de um reformatório norte-americano, acusados de estuprar e torturar alunos — principalmente os negros — ao longo de 111 anos. Curiosamente, Whitehead pretendia escrever algo mais leve logo após The Underground Railroad, entretanto, com a chegada de Trump à presidência, o autor sentiu que uma história leve e descontraída se tornaria um anacronismo em meio ao caos político e social norte-americano, por isso, preferiu abandonar momentaneamente a ideia de Harlem Shuffle — título original da obra aqui analisada.

A descontração veio, finalmente, em Trapaça no Harlem — publicado no Brasil em 2021 pela Harper Collins Brasil. Aqui o autor decidiu homenagear seus heróis da literatura policial através de uma sátira bem-humorada — mas nunca apolítica — do sub-gênero literário Heist Novels (Romances de Assalto, em tradução livre). O romance é, também, uma saga familiar que gera debates sobre colorismo, racismo e a busca de status social entre pessoas negras de pele clara. 

Durando aproximadamente 6 anos, a trama se inicia em 1959 e acompanha a relação de dois primos negros que seguiram rumos (não tão) diferentes em suas vidas, apesar de terem sido criados como irmãos desde crianças. Retinto, Ray é um vendedor de móveis usados que tenta levar uma vida digna apesar do — ou graças ao — histórico de criminalidade de seu falecido pai, o famoso Big Mike. Em um casamento feliz com Elizabeth, uma mulher negra independente — que trabalha no ramo de viagens —, e prestes a ser pai pela segunda vez, o sujeito pensa em expandir sua loja e, quem sabe, se mudar com a família para um apartamento maior em um bairro melhor localizado — e assim ganhar finalmente o respeito de seus sogros negros, que de pele clara, o enxergam como um fracasso na vida da filha. O livro oferece riquíssimos debates sobre colorismo nas entrelinhas, e uma passagem a respeito da relação dos avós com sua neta de pele retinta é particularmente alarmante, mas não deixa de ser um retrato fiel de como o racismo e o colorismo estão enraizados na sociedade norte-americana, ou, de modo mais amplo, no mundo. 

Freddie Dupreé, primo de Ray, é um sujeito de bom coração, mas que definitivamente parece atrair problemas para todos à sua volta. Sem consciência política, o sujeito participa dos protestos pelos Direitos Civis apenas para conquistar mulheres, e passa o dia usando drogas com Linus Van Wyck, um herdeiro de uma família branca e milionária de Nova York. Oficialmente, Ray é um vendedor de móveis respeitado no Harlem que batalha o dia inteiro; extraoficialmente, ele também é um receptador de joias roubadas que são trazidas à sua loja por Freddie, que colaborando com traficantes, assaltantes e gangsters, acaba envolvendo o primo em um elaborado assalto ao cofre do importante hotel situado no Harlem, chamado Teresa, conhecido historicamente por hospedar os atletas, políticos, cantores e atores negros mais bem pagos do mundo na época, entre eles, Malcolm X, a diva do jazz Dinah Washington, os escritores Richard Wright e Zora Neale Hurston, e a artista Josephine Baker.

O fato de sabermos que o hotel realmente existiu e teve grandes nomes como hóspedes faz com que tudo (planos, escolhas, ideias e ambientações) se torne mais plausível, incluindo outros detalhes que transformam o romance em uma obra atemporal, como a brutalidade policial. Enquanto Whitehead abordava no romance o real assassinato de James Powell, um adolescente de 15 anos morto por um policial branco no Harlem, crime que gerou seis dias de protesto e quebra-quebra em 1964, a população norte-americana fazia o mesmo em 2020 após o assassinato de George Floyd por outro policial branco em Minneapolis. O mais triste, como o próprio Whitehead disse em entrevista, é que esses acontecimentos são tão intrínsecos à história norte-americana que sequer podem ser considerados como algum tipo de premonição, visto que se alguém diz que em 3 dias algum policial racista irá matar uma pessoa negra sem motivo, ou que algum terrorista norte-americano vai invadir uma escola e matar todos a tiro, essa pessoa não está prevendo o futuro, mas, sim, dizendo fatos concretos baseados em evidências históricas e ininterruptas.

Entretanto, antes mesmo de ter a chance de recusar a oferta do primo, Ray é surpreendido em sua loja dias depois do assalto por capangas de Miami Joe, um gangster perigosíssimo, exigindo que ele guardasse um colar raríssimo roubado do cofre do hotel em seu cofre particular até as investigações esfriarem. Após pensar com calma, Ray finalmente decide participar do plano, afinal, com o segundo filho prestes a nascer, um dinheiro relativamente fácil viria a calhar. O que nenhum deles esperava é que o colar pertencia a uma das namoradas de Chink Montague, um gangster ainda mais perigoso que Miami Joe. É aqui que Colson Whitehead quebra completamente as expectativas do leitor, principalmente aquele já familiarizado com os gêneros homenageados no romance. Isso graças a uma decisão curiosa em termos de cronologia de eventos: se nos famosos livros do gênero o grande acontecimento — aqui um assalto — geralmente ocorre no início da história, dando partida na trama, ou no terceiro ato, com um grande e explosivo clímax, em Trapaça no Harlem acontece justamente o contrário, o autor decide narrar o assalto em off. Ou seja, o grande acontecimento que em teoria impulsiona a trama adiante não é descrito em ordem cronológica e imediata. 

Claro, essa dificuldade em assimilar as decisões de Whitehead está mais relacionada à bagagem literária e à expectativa do leitor, e quão acostumado ele está com o gênero que está sendo homenageado. Em termos narrativos, a escolha de Whitehead está longe de ser considerada um defeito. De qualquer forma, a decisão transforma o início da narrativa em uma sequência de eventos que podem ser considerados anti climáticos, principalmente se levarmos em consideração que se Whitehead decidisse acompanhar os dias que antecedem o assalto, bem como a escolha dos membros baseando-se em cada uma de suas funções — o arrombador, o gênio, o brutamontes, o motorista de escape, etc. — poderíamos ter personagens multidimensionais, detalhe que certamente nos aproxima de cada um deles, principalmente ao presenciarmos os momentos de tensão entre eles, suas possíveis diferenças ideológicas e a investigação do local a ser assaltado, o que inclui estudar os movimentos dos moradores, funcionários, etc. Em outras palavras, teríamos todas as nuances que são canonicamente intrínsecas à literatura policial — principalmente àquela que conta com assaltos em suas tramas. 

Dividindo a trama em três partes, Whitehead não tem a mínima intenção de nos entregar um romance rápido, bombástico, literalmente um eufemismo para uma chaleira fervendo prestes a explodir, como acontece em alguns dos grandes clássicos. Em determinados momentos, aliás, o modo cadenciado como o autor perambula pela vida de todos os personagens me remeteu diretamente aos soberbos romances policiais clássicos, por exemplo: Le Doulos e Rififi, escritos por Pierre Lesou e Auguste Le Breton, respectivamente, ou até mesmo a filmes cults clássicos como “Técnica de um delator”, “O círculo vermelho” e “Expresso para Bordeaux”, dirigidos por Jean Pierre Melville nas décadas de 60 e 70 — livros e filmes que estão longe de serem considerados eletrizantes, portanto, lentidão literária nem sempre resulta em defeito. Outras influências literárias diretas de Colson Whitehead são Chester Himes, Patricia Highsmith — principalmente através de Tom Ripley, protagonista de O talentoso Ripley, entre outros — e Walter Mosley, criador do detetive Easy Rawlins, eternizado no cinema por Denzel Washington no filme “O diabo veste azul”.

Whitehead não está afim de seguir o caminho exato de seus heróis cinematográficos e literários. Ao menos não ao pé da letra. Sendo assim, brincar com a expectativa do leitor acaba se tornando uma decisão acertada no final das contas. Portanto, se em um primeiro momento o livro sofreu com um início anticlimático, o contrário ocorre a partir deste momento, já que o autor construiu situações de verdadeira tensão através de um flashback — como grandes autores geralmente faziam nos romances Heist e/ou Noir — e passou a narrar detalhadamente a fatídica noite do assalto ao cofre do Teresa Hotel. Aqui, Whitehead cria sequências que envolvem funcionários e hóspedes que chegam no meio da madrugada, colocando em risco todo o plano — decisão que finalmente nos proporciona acompanhar a dinâmica da equipe, uma vez que até então eles nunca estiveram juntos no mesmo ambiente, e ainda temos pequenas dicas da personalidade de cada um dos sujeitos, nos preparando para os capítulos posteriores, onde cada um deles voltará a viver sua vida como se nada tivesse acontecido até se sentirem seguros para finalmente desfrutar do sucesso do assalto sem chamar muito a atenção dos investigadores. Toda a harmonia acaba, lógico, quando alguns dos membros começam a morrer misteriosamente, gerando desconfiança entre todos os envolvidos, visto que agora a possibilidade de existir um trapaceador entre eles se torna realidade.

Acertadamente, Whitehead usou as características já consagradas de romances e filmes que o influenciaram para contar a história de dois primos amaldiçoados por decisões paternas — em um dos casos, abandono do pai que possuía outra família; em outro, uma herança não oficial que significou vários anos com uma espécie de tranquilidade bancária —, e, finalmente, mas não menos importante, para fazer um registro histórico, ainda que estilizado de como era a vida de pessoas negras de boa condição financeira no Harlem pós-WWII e Pré-Movimento Pelos Direitos Civis, além de sua relação com aqueles que eram de classes econômicas inferiores. E por falar em WWII, Whitehead não hesita ao escancarar os maus-tratos recebidos por jovens negros que muitas vezes aceitavam ir à guerra apenas para poder ter o que comer diariamente e para fugir do racismo e da homofobia em seu país natal, como fizeram diversos escritores negros que viveram como expatriados na França durante as décadas de 40, 50 e 60.

Por falar em homofobia, algo estranho que pode passar desapercebido para um leitor destraído é o fato de que apesar de 95% dos personagens principais do romance serem negros, Whitehead decidiu usar Linus, um personagem branco para discutir a relação da sociedade na época com a homossexualidade, uma vez que ele foi afastado da vida social de sua família por sua homossexualidade. Um dos melhores amigos de Freddie no romance, além de ser uma peça-chave na obra, Linus existe também para que uma discussão acerca das terapias de reorientação sexual aconteça de forma sucinta, porém bastante pertinente, principalmente por sabermos que esses crimes ainda acontecem. Na minha opinião, entretanto, não deixa de ser curioso a decisão, uma vez que ao criar um personagem gay branco, o autor perdeu a oportunidade de discutir a homofobia na comunidade negra — e religiosa —, que como sabemos, sempre foi, e ainda é, extremamente homofóbica. Uma decisão que, a meu ver, deixaria o romance ainda mais rico e relevante.

Finalmente, o que mais causa estranhamento na construção narrativa de Whitehead é a ausência de um detetive com destaque na trama. Como sabemos, o detetive é talvez o personagem-símbolo da literatura noir e de alguns heist novels, juntamente com a femme fatale — que por sinal, também é praticamente inexistente no romance —, quando falamos em grandes obras do gênero é impossível não lembrar de detetives como Jules Maigret, Philip Marlowe, Easy Rawlins e Sam Spade. Portanto, para os fãs do gênero, essa ausência pode ser considerada um ponto fraco na obra. No entanto, se o romance possui alguns pequenos tropeços enquanto literatura noir, ele é praticamente perfeito como heist novel ao dar voz aos psicopatas que formam a quadrilha, e como documento histórico, principalmente quando Whitehead usa a descoberta da obra de James Baldwin — através de seu livro Da próxima vez o fogo, publicado em 1963 — por estudantes negros que estavam tendo seu primeiro contato com a política em meio à revolta da população negra com relação à brutalidade policial e os protestos Pré-Movimento Pelos Direitos Civis. 

Em última instância, Trapaça no Harlem é um livro longo, e muitas vezes cadenciado ao ponto de ser considerado lento. Mas, nem por isso deixa de ser divertido, arrebatador, repleto de referências literárias e políticas, e claro, bastante violento — principalmente em seu terceiro ato. Sem dúvidas, é uma obra que merece todo o sucesso recebido no mundo literário, o que aliás justifica a sequência que está sendo escrita por Whitehead e que será publicada em 2023.

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