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Horror distópico e força imaginativa em “Friday Black”, de Nana Kwame Adjei-Brenyah

Friday Black (Editora Fósforo, tradução de Rogerio W. Galindo), de Nana Kwame Adjei-Brenyah, é uma boa surpresa. E não dizemos isso nos baseando apenas na qualidade do seu texto, mas sim nas escolhas temáticas que o autor faz para seus contos. Adjei-Brenyah, que estreia com essa coletânea, demonstra bastante força ao se permitir à imaginação, levando as suas histórias para caminhos imprevisíveis e, não raro, cruéis. 

Os contos de Friday Black se passam em um universo futuro, mas, aparentemente, não distante. Contudo, as mudanças que se mostram para nós nos momentos em que as histórias se passam nos fazem crer que houve uma mudança abrupta na maneira com a qual mundo como conhecemos lida com as suas questões sociais, políticas, tecnológicas e, sobretudo, raciais. A sensação é de que houve um processo aceleracionista que só realçou as desigualdades e violências das quais já somos testemunhas. Mas isso, olhando a coisa toda de maneira positiva. Também é possível imaginar que esse outro-mesmo mundo se formou a partir da realidade que já conhecemos, mas que não observamos com a devida atenção, sendo tudo transformado aos poucos, nos gerando uma apatia que não nos permite movimentos necessários para que impeçamos qualquer coisa. 

A escrita de Adjei-Brenyah é direta. Não há tentativas de ser poética ou rebuscada. Ela só vai ao ponto, o que casa com as tramas que narra. E se no começo há algum estranhamento, quando menos vemos já estamos caminhando por seus períodos curtos sem esforço algum. De novo, o seu estilo serve muito bem às suas histórias. O que nos parece ser um bom indício da sua preocupação com a forma – que tem um foco maior na narrativa, é verdade.

Foto: Reprodução / Limitless Imprint Entertainment

E falando em narrativa, o conto que abre o livro, “Os cinco de Finkelstein”, já é uma porrada e tanto. Ecoando os incontáveis casos de violência contra negros estadunidenses, somos postos diantes de uma realidade na qual a revolta ganha corpo e sai do controle. E entre a compreensão e o horror, seguimos nessa distopia na qual a negritude precisa, a todo tempo, ser regulada. Já em “A Era”, temos um vislumbre do que pode ser uma vida completamente automatizada, sem frestas, na qual tudo precisa funcionar de maneira que esmague a sensibilidade humana, e que qualquer traço que destoe da performance almejada é suplantado. Em contos como o que dá nome ao livro, “Friday Black”, e “Como vender uma jaqueta, segundo o Rei do Gelo”, que se passam no mesmo ambiente e com as mesmas personagens, a brutalidade do lucro a qualquer custo somada a um consumismo desenfreado e estimulado tendo o absurdo como lente de aumento para as situações que ocorrem nessas histórias nos fazem observar certos eventos e realidades com estranheza e horror. Um excelente jeito de salientar criticamente alguns problemas de nossa sociedade. E isso só para citar alguns exemplos. Há muito mais na obra. 

Contudo, todas as questões sócio-políticas trabalhadas em Friday Black não obscurece o elemento humano das histórias. Somos sempre expostos aos questionamentos das personagens acerca de si e de sua realidade. E quando isso não acontece de forma mais ativa por parte delas, o problema da vez fica nítido nas construções que o autor faz tão bem. O que amplifica toda a barbaridade que permeia os contos, pois em meio à tanta desumanização, há sempre algum feixe de humanidade como vestígio. Mas nunca como uma luz no fim do túnel.

Em Friday Black, Nana Kwame Adjei-Brenyah se mostra um autor voraz. E a maneira como consegue fabular a partir do seu olhar crítico e perspicaz para o nosso presente é, sem dúvida, o ponto mais forte de seu trabalho. A atmosfera de horror distópico que cria é muito viva e tangível, mesmo sendo calcada no absurdo. As comparações que nos levam a pensar numa Black Mirror dirigida e roteirizada por Jordan Peele não são descabíveis, mas tampouco fazem justiça ao trabalho deste jovem escritor – ele tinha apenas 28 anos quando publicou esse livro. Adjei-Brenyah traz em seu trabalho frescor e originalidade. Há em seu texto uma assinatura que, dificilmente, não o fará uma referência para seus leitores. O que nos parece um ótimo sinal tendo em vista que esse livro é apenas a sua estreia literária. Que a sua escrita siga nos tirando do lugar para muito além do flash.

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