Passing e a falsa segurança da passabilidade branca dentro de relacionamentos racistas

 
Inicialmente Nella Larsen parece contar uma história simples sobre o reencontro de duas amigas negras de pele muito clara (Irene e Clare), que depois de 12 anos, já adultas, usam, cada uma a sua maneira, o privilégio de se passarem por brancas em uma Nova Iorque extremamente racista. Irene é de classe média, casada com um médico branco e possui dois filhos negros. Ela não “se passa” por branca de propósito, e nem sente vergonha da cor, mas ao mesmo tempo, não pensa duas vezes ao usar esse seu privilégio para frequentar bares e restaurantes segregados. É em um desses bares sofisticados, aliás, que as amigas se reencontram por acaso, ambas passando-se por brancas, vale destacar. Clare é casada com um homem branco extremamente racista e possui uma filha da mesma cor. Ela é lida como branca desde a infância, quando, após a morte do pai (morto em uma briga de bar por homens brancos) é levada para viver com duas tias brancas, e a principal ordem das mulheres é: esqueça do seu passado. Você agora é branca. Vive com um pavor constante de engravidar novamente e ter sua vida arruinada por um filho negro.
 
Em pouco mais de 100 páginas, Passing (lançado em 1929, no auge do movimento atualmente conhecido como Harlem Renaissance) aborda o racismo internalizado, e o desejo de ser racialmente invisível nos anos 20 e, portanto, poder viver livremente em uma sociedade racista e misógina. Mas Passing é também um estudo importantíssimo sobre como traumas relacionados ao racismo na infância podem ser usados como combustível para uma miscigenação forçada que pode significar uma certa segurança social e racial para os filhos (isto é, claro, se estes vierem a nascer brancos).
 
Nella Larsen também aborda pigmentocracia, sexualidade, repressão do desejo lésbico, morte, tragédia, suicídio, gênero, classe, ciúmes, maternidade, branquitude, e por último, mas não menos importante, como a segurança social e econômica de um casamento inter-racial pode salvar essas mulheres, ainda que o perigo inerente de serem “descobertas” por seus parceiros brancos possa significar o fim de suas vidas (e aqui não falo vida no sentido de volta à pobreza e sim literalmente).
 
A pressão diária que Clare sofre por estar casada com um homem abertamente racista a faz ter casos extraconjugais com homens negros. Uma vida de objetificação por parte dos brancos a faz correr o “risco” de ser confundida com uma profissional do sexo, já que ela sempre está sozinha em festas supostamente organizadas por e para casais. Já Irene quer blindar os filhos da educação sexual na escola, do racismo diário e evita que eles fiquem sabendo dos linchamentos, enquanto o pai é favor de que eles devem saber o quanto antes de como a sociedade os odeia. O que é interessante, já que a mãe negra quer evitar o sofrimento dos filhos, e o pai branco é a favor.
Escritora Nella Larsen. Fonte: Lapham’s Quarterly
Nella não esquece de debater misoginia e a solidão da mulher negra, que muitas vezes é preterida dentro da própria comunidade, uma vez que, de acordo com a autora, os homens negros são ensinados a amar a mulher branca desde a infância. Assim sendo, essas mulheres acabam em relacionamentos inter-raciais com homens que as enxergam apenas como algo exótico, ou como um objeto hipersexualizado que precisa aceitar essas normas arcaicas para conseguir ter um futuro, um marido, uma família, etc. E no caso de Clare, seu sofrimento é em dobro, já que ao se passar por branca para evitar o racismo, ela acaba frequentando lugares dominados por racistas, e com isso, sua chance de estar em um relacionamento com um racista não é só bastante alto, como realmente acontece. O que Larsen quer dizer aqui? Que a mulher negra não conseguirá ser feliz independente do caminho que escolher? Vejamos Clare: casando-se com um racista ela ao mesmo tempo se permite ser alvo da objetificação por parte do marido (ainda que ele não saiba que ela é, de fato, negra) ao mesmo tempo em que não se reconhece como negra, mas que usa seu seu charme para ter casos fora do casamento com homens negros, que por sua vez a tratam também como objeto, já que no final das contas, são com as brancas que eles querem casar.
 
O brilhantismo de Larsen é amplamente escancarado quando ela discute, curiosamente de forma quase que implícita, o desejo lésbico e a inegável tensão sexual entre as duas amigas. Irene quer ter a liberdade sexual de poder ter “férias” de um casamento sem amor e poder se sentir desejada, e desejar a amiga sem por em risco seu casamento. Em certo momento Irene descreve a amiga como “requintada, reluzente, perfumada, ostentando um vestido imponente preto, cuja saia longa caía em dobras graciosas sobre seus pés delgados de princesa; seu cabelo resplandecente desenhava em sua nuca um pequeno cacho suave, seus olhos brilhavam como duas jóias negras. […] e aquela boca larga como uma flor escarlate contra o marfim de sua pele”.
 
Esse desejo pela amiga atinge patamares tão altos que Irene começa a desconfiar de um caso entre Clare e seu marido, ainda que não tenha nenhum motivo para imaginar algo do tipo. Quase como se estivesse torcendo para o caso ser real, e assim, poder finalmente experimentar o gosto de outra mulher, mesmo que através das sobras do sexo adúltero inter-racial e heteronormativo (por parte dela com o marido e da amiga com o marido), e usando esse sexo imaginário a três como uma blindagem para não destruir seu casamento e continuar dentro da mobilidade de classe proporcionada pela branquitude heterossexual, já que a homossexualidade e a vida sexual da mulher negra fora do que é considerado normal não seria uma possibilidade a ser cogitada. Curiosamente isso não é algo incomum, já que algumas mulheres lésbicas aceitam participar de sexo a três ignorando quase que completamente a parte masculina para poder se relacionar com outra mulher sem assumir abertamente sua orientação sexual, ainda que desse modo acabem contribuindo com o fetiche do sexo lésbico tão adorado por homens.
 
Curiosamente, a carreira de Nella Larsen teve um final precoce em 1930, quando, após publicar o conto “Sanctuary” foi acusada de “se passar” pela autora (uma escritora inglesa e branca chamada Sheila Kaye-Smith) e plagiar “Mrs. Adis”, publicado em 1919. Alguns especialistas dizem que a base do conto e além de diálogos são idênticas ao da obra anterior. Larsen se afastou da vida literária e nunca mais publicou.
 
Ainda sem tradução no Brasil, Passing pode ser encontrado na Amazon no formato e-book, e é uma oportunidade interessante para quem ainda não teve contato com autores e intelectuais negros do Harlem Renaissance, período riquíssimo e pouco conhecido.

                                                                                             

30 respostas

  1. Adorei a indicação nunca tinha ouvido falar sobre a autora,mas parece ser hiper complexo e interessante especialmente porque há pouca literatura sobre pigmentocracia e colorismo,uma pena não ter sido traduzido.
    @x.rraquel

  2. Resenha muito interessante! Vou pesquisar mais sobre esse período! Uma pena a autora ter deixado de publicar, mas anotada a indicação, obrigada. ��

  3. Antes de tudo, preciso dizer que a resenha do livro foi muito bem escrita!! Sobre o livro em si, não o conhecia, até salvei no celular pra pesquisar. A leitura me parece ser incrível, pelo enredo que envolvem as personagens principais – que aliás são duas negras. Tenho visto muito debates na internet sobre miscigenação racismo e privilégios, leio cada argumento difícil de acreditar rs, justamente por isso, acredito que seja uma leitura fundamental. Indicação incrível!!

  4. Primeiramente, como muitos já falaram aqui, que delícia de ler esse texto! Me deixou tão intrigada com o que esse livro tem a falar… Uau!
    Segundo: ESTAVA A R$ 2,90 NA AMAZON! Vontade de comprar uns 10 hahahaha

    Beijinhos :*

  5. O livro está sendo adaptado para o cinema com atrizes indicadas ao oscar no passado recente, então estou torcendo que com o sucesso do filme o livro ganhe lançamento em português.

  6. fiquei muito curiosa pelo texto, o único livro lesbico de autora negra que li foi "bem vindos ao paraíso" (não que eu conheça livros com romances lesbicos escritos por brancas, mas obviamente a maior parte do mercado é mais aberta para ss brancas).

  7. Adorei, fiquei curiosa para ler.
    Que possamos cada vez mais dar espaço para leituras descolonizadas e necessárias. Espero ansiosamente pela tradução, para que mais pessoas tenham acesso ♥️

  8. Penso que a sua resenha deixa clara a intenção social ao "cancelarem" a autora na época. Deu vontade de investigar: realmente existiu o tal plágio? Me pareceu uma desculpa para calar quem teria muito a dizer.

  9. Adorei a indicação! Não conhecia a autora nem o livro. E tá baratinho o ebook na Amazon ♥️

  10. Muito interessante! Já sabia que "se passar" por branca ou branco era algo muito forte nas pessoas negras de pele clara nos Estados Unidos, mas não sabia que existiam autores que escreviam sobre isso. Com certeza vou pesquisar mais e procurar este livro.

  11. Oii,
    nossa, adorei a resenha, maravilhoso, que livro!
    Não conhecia ainda, mas já quero!
    E tá superbarato!
    Duas mulheres presas pelo preconceito. Sem poder ser livres para amar quem quiserem, viver com suas próprias culturas e opiniões.
    Isso tudo é muito triste e inaceitável.
    Com certeza lerei!
    bjs

  12. Resenha brilhante, despertou meu interesse pelo livro e também por pesquisar melhor sobre esse período que confesso nunca ter ouvido falar antes.
    Um livro riquíssimo que discute temáticas muito interessantes. O preço bastante acessível também rsrs já está na minha lista de leitura para agosto.
    E, como li nos outros comentários, já estou ansiosa para a adaptação para os cinemas.

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Maria Ferreira

Maria Ferreira é uma mulher negra baiana. É criadora do Clube Impressões, o clube de leitura de livros de ficção do Impressões de Maria, e co-criadora e curadora do Clube Leituras Decoloniais, voltado para a leitura e compartilhamento de reflexões sobre decolonialidade. Também escreve poemas e tem um conto publicado no livro “Vozes Negras” (2019). É formada em Letras-Espanhol pela Universidade Federal de São Paulo. Seus principais interesses estão relacionados com temas que envolvem literatura, feminismo negro e decolonial e discussões sobre raça e gênero. Enxerga a literatura como uma ferramenta essencial para transformar o mundo. 

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