“Quem matou Nola Payne?”, de Walter Mosley: quando o romance policial vira documento histórico

Em uma das últimas confusões causadas pela própria polícia, os moradores de um bairro em Los Angeles tentaram espancar um homem branco que passava pelas ruas. Assustado, ele foge para um dos prédios e é acolhido por Nola Payne, uma jovem negra mais conhecida como Pimentinha. Na manhã seguinte, a jovem é encontrada morta e o homem branco, desaparecido.

Parece uma narrativa genérica de romances policiais sensacionalistas, mas não é. Estamos em Watts, um bairro real de Los Angeles que em agosto de 1965 viveria um pesadelo de seis dias graças à brutalidade policial contra a população negra. Em 11 de agosto, Marquette Frye, um jovem negro de 21 anos, foi preso por dirigir supostamente embriagado e, após resistir à abordagem, foi agredido pelos policiais diante de vários moradores. A revolta da população contra os atos da polícia racista, somada à segregação residencial, rapidamente se transformou em uma guerra marcada por incêndios, saques e confrontos intensos com as forças de segurança. O Levante de Watts resultou em 34 mortes — com mais de 14 mil membros da Guarda Nacional mobilizados —, mais de mil feridos, milhares de prisões e a destruição de centenas de negócios no bairro, causando cerca de 40 milhões de dólares em danos materiais.

Foi nesse contexto histórico que Walter Mosley decidiu centralizar a trama de Quem matou Nola Payne? — então seu 9º romance protagonizado por Easy Rawlins, um investigador negro informal que se tornaria uma das figuras mais emblemáticas da literatura hardboiled. Publicado originalmente em 2004 como Little Scarlet e no Brasil um ano depois pela editora Landscape (que não exerce mais atividades), o romance de ficção histórico-policial tem início quando o bairro de Watts começa a se reerguer. Rawlins, a cada dia mais distante do jovem impulsivo dos romances anteriores, é agora um homem de meia-idade, trabalhador, com família — e recebe em sua casa uma visita inesperada: a polícia. Sem muita opção, ele é levado à delegacia, onde o detetive branco Melvin Shuggs revela que Nola Payne é a 35ª morte resultante do levante, mas que o caso será mantido em sigilo. Por ser conhecido no bairro, Rawlins é recrutado para trabalhar com Shuggs e descobrir a identidade do homem branco, evitando que uma nova revolta ecloda caso a população descubra o que aconteceu com ela.

“Nenhum policial jamais tinha se aventurado a trocar um aperto de mão comigo. As mãos estendidas da lei seguravam cassetetes de madeira e pistolas, algemas e mandados de prisão, mas raramente dão boas-vindas — e nunca propõem igualdade.” – Walter Mosley

Sempre inserindo o contexto racial em um gênero predominantemente branco, Mosley constrói com maestria uma trama de capítulos curtos, vibrantes e explosivos. Agora acompanhado do carismático Melvin Shuggs, Easy Rawlins precisa revirar Los Angeles em busca desse suposto homem branco, que segundo a polícia é o culpado, mas que, de acordo com sua intuição, é apenas a ponta de um iceberg.

Quem matou Nola Payne? aborda a brutalidade policial — sem nunca se aproximar do trauma porn —, a passabilidade branca, a política, a islamofobia e, em uma reviravolta metalinguística, a própria literatura negra.

Fazendo jus às tramas ramificadas da literatura hardboiled, repletas de personagens de integridade duvidosa, a narrativa lentamente deixa de ser apenas sobre quem matou Nola Payne para se tornar a busca frenética de dois homens, um negro, um branco, que precisam deixar suas diferenças políticas e raciais de lado ao perceber que estão, na verdade, à caça de um assassino em série.

Para o leitor mais atento e com mais bagagem dentro da literatura policial, a relação entre os dois remete a outra icônica dupla do gênero: Virgil Tibbs e Bill Gillespie, protagonistas de No calor da noite, escrito por John Ball e publicado em 1965, curiosamente, o mesmo ano em que se passa a trama de Quem matou Nola Payne?.

O livro possui vários pontos altos, e o principal deles é o fato de ser tão atual apesar de ter sido escrito no início dos anos 2000 e de se passar nos anos 1960. Por meio de um déjà vu histórico, o leitor politizado entende como os linchamentos de pessoas negras eram constantes antes do surgimento do movimento pelos direitos civis, algo que Mosley certamente acompanhou em sua juventude. A violência policial tão comum nos anos 1990 ecoa por toda a narrativa, e para quem lê o romance hoje, é impossível não traçar paralelos diretos com o assassinato de George Floyd e, por conseguinte, com o movimento Black Lives Matter.

Revolta de Watts. Créditos: Site Contrapoder

Apenas para efeito de comparação: o Levante de Watts foi um dos mais violentos da história recente norte-americana, só superado em 1992 quando, também em Los Angeles, a população se revoltou durante seis dias contra a absolvição de quatro policiais flagrados espancando o jovem negro Rodney King. Quando os distúrbios cessaram, 63 pessoas haviam sido mortas, 2.383 ficaram feridas, mais de 12.000 foram presas e os danos materiais ultrapassaram um bilhão de dólares, tornando aquela a revolta mais destrutiva da história dos EUA.

Esse diálogo histórico-racial entre épocas distintas confere uma riqueza singular ao romance. Por ser escrito sobre, antes, durante e após vários acontecimentos reais, o livro faz o leitor sentir-se próximo da narrativa, quase inserido no dinamismo dos acontecimentos. Vale destacar também como Mosley foge das caricaturas, seja ao retratar personagens brancos racistas, seja na construção do vilão — longe de ser unidimensional, ele nos faz repensar o que transforma um ser humano em assassino.

Abandonando os clichês da própria literatura policial, Mosley faz de Easy Rawlins um personagem política e racialmente consciente, além de dotado de grande inteligência investigativa. É notável como ele adapta sua fala de acordo com quem está ao seu redor. Diante de pessoas brancas racistas, usa um vocabulário do interior, quase como se falasse da forma que elas esperariam de um homem negro. Entre moradores negros da periferia, muda gestos, fala e comportamento, camuflandose no ambiente com naturalidade — algo que Zora Neale Hurston fez com maestria em Seus olhos viam Deus. E na presença de policiais, políticos e investigadores brancos, assume um tom imponente, sério e sem qualquer sinal de medo, deixando claro que não estão lidando com qualquer um.

Em última análise, Quem matou Nola Payne? é mais do que um romance policial bem estruturado: é um reflexo das tensões raciais nos Estados Unidos, passado e presente, e da forma como a literatura negra se apropria, transforma e enriquece um gênero já consagrado para contar histórias antes negligenciadas. Walter Mosley não apenas constrói uma trama instigante e repleta de reviravoltas, mas também desenvolve um protagonista que, ao longo dos anos, se tornou uma das figuras mais emblemáticas da literatura policial. Ao transformar um assassinato em Watts em uma investigação que atravessa camadas profundas da experiência negra americana, Mosley entrega não apenas um excelente romance policial, mas um documento literário que expõe, sem concessões, as cicatrizes deixadas pelo racismo estrutural norte-americano.

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Maria Ferreira

Maria Ferreira é uma mulher negra baiana. É criadora do Clube Impressões, o clube de leitura de livros de ficção do Impressões de Maria, e co-criadora e curadora do Clube Leituras Decoloniais, voltado para a leitura e compartilhamento de reflexões sobre decolonialidade. Também escreve poemas e tem um conto publicado no livro “Vozes Negras” (2019). É formada em Letras-Espanhol pela Universidade Federal de São Paulo. Seus principais interesses estão relacionados com temas que envolvem literatura, feminismo negro e decolonial e discussões sobre raça e gênero. Enxerga a literatura como uma ferramenta essencial para transformar o mundo. 

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