A poderosa escrita de James Baldwin em “The Fire Next Time”

“A arte pode funcionar para evocar emoção, para contar histórias e amplificar vozes, para atingir os grupos de pessoas com beleza e verdade, e para informar as pessoas das injustiças sociais.” – Tatyana Fazlalizadeh

The Fire Next Time foi publicado originalmente em 1963 e contém dois ensaios extremamente relevantes ainda nos dias atuais. O primeiro, intitulado “My Dungeon Shook: Letter to my Nephew on the One Hundredth Anniversary of the Emancipation” aborda, entre outros temas, a imbecilidade colossal dos brancos americanos e foi escrito em forma de carta por Baldwin para seu sobrinho de quatorze anos. Publicado na revista New Yorker em 1962, o título refere-se aos cem anos do Ato de Emancipação assinado pelo presidente Abraham Lincoln durante a Guerra civil americana. O segundo ensaio, “Down at the Cross: Letter from a Region in My Mind”, que ocupa cerca de oitenta por cento do livro, foi publicado originalmente em 1962 na revista The Progressive e aborda a crise de religiosidade sofrida pelo autor quando ele completou quatorze anos, culminando na descoberta de sua sexualidade quando vários de seus amigos e amigas começaram a fumar, a beber e a ser sexualmente ativos, tudo isso enquanto ele tentava entender o que era ser negro dentro do cristianismo e na América. Devido à importância política, social e cultural, ambos os ensaios foram publicados no ano seguinte como um livro único.

My Dungeon Shook

Baldwin escreve detalhes da sua vida pessoal de forma impressionante. Embora com um talento mundialmente conhecido, e mesmo após eu ter passado incontáveis horas debruçado em seus livros, seu dom com as palavras não tarda a surpreender, me deixando em um beco sem saída ao expressar em palavras o que sua escrita me faz sentir. Vejamos, por exemplo, a passagem em que ele fala sobre sua decepção com seu pai. Segundo Baldwin, seu pai foi derrotado muito antes de morrer porque no fundo do seu coração, ele realmente acreditou no que os brancos falaram sobre ele” (posição 30/35). Suas palavras são fortes e lamentavelmente podemos perceber que pouca coisa mudou desde a publicação da obra. 

“O preço da libertação dos brancos é a libertação dos negros — a libertação total, nas cidades, nas vilas, perante a lei e na mente.”

Para Baldwin, o pior não é esperar ser aceito pelos brancos, mas sim aceitá-los com amor. Segundo ele, os brancos ainda estão presos em um local da história em que eles ainda não entendem, e que embora nem todos sejam racistas, os que não o são precisam ser também antirracistas, já que é muito mais fácil falar do que agir, e “agir é estar comprometido, e estar comprometido é estar em perigo” (posição 78, tradução minha). James Baldwin finaliza seu primeiro ensaio dizendo que eles estão, na verdade, celebrando os cem anos da Emancipação cem anos muito cedo, já que ninguém será realmente livre até que todos sejam.

Down at the Cross

Sua crise religiosa culmina com a ascensão dos cafetões, das profissionais do sexo e dos traficantes nas esquinas. Baldwin, que antes não tivera tais pensamentos, começou a se ver claramente entre eles caso não conseguisse encontrar seu lugar na sociedade. O fato dele conseguir se imaginar tranquilamente naquele ambiente, sendo de fato um deles, o fez se sentir a pessoa mais suja do mundo. Não obstante, naquele verão, ele realmente se sentiu ainda mais afundado nas suas dúvidas, quando se relacionou (não sei se relacionar é realmente a palavra ideal) com garotos e garotas, e de forma mais explícita, com mulheres e homens bem mais velhos que ele.

Desapontado com o pai, que o forçava a abandonar os estudos e tentar ganhar a vida como seus jovens amigos, ele teve de lutar com todas suas forças para continuar na escola, mesmo sabendo que a chances de uma boa educação eram mínimas, visto que desde os 10 anos de idade, enfrentava policiais racistas, que dia após dia não economizavam nos xingamentos raciais, nos insultos relacionados a seus ancestrais e às suas habilidades sexuais. Anos mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, vários de seus amigos preferiam a loucura de uma guerra ao racismo enfrentado no próprio país; e sem surpresas, voltavam, isto, quando conseguiam, com mais traumas do que quando se alistaram, acabando em guetos, viciados em heroína. Em outras palavras: escolhiam a guerra pois estavam cansados de lutar contra o homem branco, apenas para serem jogados na sarjeta pelo mesmo homem branco quando voltavam ainda mais debilitados da batalha, isto quando não eram linchados por algo que não fizeram.

Baldwin percebeu, de forma precoce, as similaridades entre os religiosos e os cafetões que o assediavam. A frase que constantemente era ouvida por ele tanto na igreja quanto nos becos escuros sujos de urina e seringas contaminadas era uma variação de “de quem esse menino lindo é?”, e devido à jovem, mas incessantemente traumatizada vida de preterimento, ele estava desesperado para ser, de fato, o garotinho de alguém. A exploração dos fiéis pela igreja é evidentemente um dos pontos mais fortes, que Baldwin relata de modo cru quando atuava como pastor. Ele não conseguiu ignorar a hipocrisia da instituição, como os pastores estavam a cada dia mais ricos, com carros importados, enquanto os pobres fiéis esfregavam o chão o dia inteiro para doar suas economias de forma ingênua na esperança de um dia prosperar, mas eram impedidos graças ao ódio disfarçado de amor que a igreja pregava todos os dias.

“Se o conceito de Deus tem alguma validade ou algum uso, só pode ser nos fazer maiores, livres e mais amorosos. Se Deus não pode fazer isso, então chegou a hora de nós nos livramos dele.”

O melhor encontra-se na parte final do segundo ensaio, quando utilizando de uma tensão incrivelmente assustadora, o autor narra os dias anteriores ao seu encontro com o líder da Nação do Islã, Elijah Muhammad. O jantar aconteceu na mansão do líder e Baldwin é explicitamente direto quando diz que seu pavor antes e durante o encontro foi causado pelas suas próprias dúvidas entre o amor e o ódio, entre a dor e a raiva. O encontro é descrito como se Baldwin estivesse prestes a ser assassinado por um poderoso mafioso. No mesmo capítulo, ele ainda denuncia o sexismo da época, que interseccionalizado com o racismo, fazia com que as mulheres fossem vistas como objetos não só pelos homens negros, como também pelos brancos, que por sua vez precisava negar a masculinidade dos negros para que sentisse algum valor na sua.

Não muito indicado para quem não possui um certo conhecimento sobre a história, cultura e política norte-americana, bem como o movimento dos direitos civis e os Panteras Negras, The Fire Next Time foi publicado no Brasil em 1967 com o título Da Próxima vez, o Fogo pela editora Biblioteca Universal Popular, mas encontra-se esgotado, o que é uma pena porque por abordar assuntos tão pertinentes, uma nova tradução seria muito bem-vinda.


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Maria Ferreira

Maria Ferreira é uma mulher negra baiana. É criadora do Clube Impressões, o clube de leitura de livros de ficção do Impressões de Maria, e co-criadora e curadora do Clube Leituras Decoloniais, voltado para a leitura e compartilhamento de reflexões sobre decolonialidade. Também escreve poemas e tem um conto publicado no livro “Vozes Negras” (2019). É formada em Letras-Espanhol pela Universidade Federal de São Paulo. Seus principais interesses estão relacionados com temas que envolvem literatura, feminismo negro e decolonial e discussões sobre raça e gênero. Enxerga a literatura como uma ferramenta essencial para transformar o mundo. 

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