0
Literatura brasileira Literatura negra

Os contos certeiros de Cuti em “A pupila é preta”

O livro de contos A pupila é preta, do Cuti, publicado pela editora Malê no ano de 2020,  é composto por 22 contos de diferentes tamanhos, em que com habilidade, ironia e humor expõem situações vivenciadas por pessoas negras numa sociedade racista.

O leitor irá se deparar com contos de diferentes tamanhos e formas, que em maior ou menor grau, evidenciam experiências de pessoas negras em situações racistas. O que implica também passear por uma série de cenários em que essas pessoas são condicionadas socialmente a estarem presentes: como a periferia, bairros sem asfalto, etc. E não só a condição geográfica faz parte da vida dessas pessoas, mas também as experiências familiares e pessoais, como crescer sem pai, ser ensinado desde cedo que a para sermos aceitos socialmente é preciso embranquecer nossa identidade. E como se dá esse embranquecimento? Por meio de procedimentos estéticos para alisamento do cabelo, nas escolhas individuais de relacionamento com pares de outra cor diferente da nossa, normalmente mais clara e pode ser que essa escolha não seja  feita de um modo consciente.

Compre aqui:

Esses são alguns dos enredos de contos presentes no livro. Vou destacar os contos que mais gostei e os motivos que me fizeram gostar deles. O Cuti tem a habilidade de contar histórias inteiras em menos de uma página, como acontece no conto “Tratamento”, em que numa briga de vizinhos, o cara negro vítima de racista dá o troco e deixa o racista no chão. Foi até catártico ler essa história.

Nos contos mais longos, Cuti também obtém êxito pela ótima construção psicológica dos personagens e pelo enredo aprofundado, como é o caso do conto “O roubo”, em que um homem, depois de cometer um roubo em que resultou no assassinato da vítima, planeja fugir da cidade, mas têm seus planos frustrados por uma reviravolta na história.

De forma geral, eu avalio a experiência de leitura como positiva por trazer histórias plurais e verdadeiras, no sentido de que com certeza já ouvimos ou passamos por alguma das situações descritas. No meu caso, me identifiquei com a garota negra, sambista, que vive dividida entre alisar o cabelo para ir a uma entrevista de emprego, ou deixá-lo natural para sambar na avenida. Obviamente, já passei pela fase de achar e ser condicionada a pensar que se eu estivesse com o cabelo alisado seria aceita no mercado de trabalho, tanto que os dois primeiros trabalhos que eu tive, eu estava com cabelo alisado.

E para não dizer que não tenho nenhuma crítica ao livro, em alguns momentos achei que a escrita do autor, mesmo sendo inegável que é certeira, me soou didática e formal demais, o que não interfere em nada na qualidade do livro como um todo.

Esse foi o meu primeiro contato com a prosa de Luiz Silva, pseudônimo de Cuti e no que depender de mim, não será o último. 

Agora me conta aqui: você gosta de ler contos? Ficou com vontade de ler esse livro?

                                                       


Você gosta do conteúdo criado pelo Impressões de Maria aqui no blog, no YoutubeInstagram e demais redes? Gostaria de apoiar este trabalho? Você pode fazer suas compras da Amazon usando o link do blog sem pagar nada a mais por isso, ou apoiar o projeto Leituras Decoloniais no Catarse. Obrigada!

Você poderá gostar

Nenhum comentário

    Deixe um comentário

    Narrativas com fluxo de consciência Livros para quem gostou de “Renaissance”, de Beyoncé Conheça a escritora Natasha Brown