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“Sobrevidas”, um romance épico de ficção histórica de Abdulrazak Gurnah

Amor, luto e esperança são sentimentos que movem a vida de cinco personagens em uma narrativa que vai do final do século XIX em uma cidade africana ocupada pela Alemanha até o final dos anos 60

No início do século XX conhecemos o casal Khalifa e Bi Asha, que, vivendo na África Oriental Alemã, tentam ter o primeiro filho. Em determinado momento nos é apresentado Ilyas, que após ser raptado por um soldado das tropas coloniais alemãs e ter passado 10 anos longe de sua família, chega à cidade e descobre que seus pais estão mortos, e que sua irmã, Afiya, vive como escravizada com seus tios. Anos depois, conhecemos Hamza, um jovem que após ser vendido pelos pais ainda criança e ferido durante a Primeira Guerra Mundial, retorna à cidade natal em busca de trabalho e acaba se apaixonando por Afiya, que agora, aos 18 anos, vive com Khalifa e Bi Asha, uma vez que Ilyas, seu irmão a abandonou para se alistar no exército.

Abdulrazak Gurnah — nascido em Zanzibar, na Tanzânia, e ganhador do Nobel de Literatura em 2021, finalmente chega ao Brasil com 9 romances de atraso. Sobrevidas, seu décimo romance, vai narrar uma história épica com narrativas que navegam interligadas e de forma geralmente calma, mas que por vezes evocam imagens assustadoras em nossa mente graças à situações em que os personagens se encontram, como por exemplo, quando Afiya ainda criança se debruça em um poço em busca de água. O autor manipula nosso psicológico duplamente ao criar uma sequência que pode terminar com um acidente — o que gera apreensão no leitor —, e ao descrever o efeito da voz retorcida e gutural da personagem dentro daquele poço. É sintomático, aliás, esta cena acontecer com Afiya ainda criança, uma vez que a cena pode simbolizar toda a existência da garota como escravizada pelos tios.

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Um aspecto interessante e que traz um humor anacrônico — uma vez que estamos diante de vidas tão devastadas pelas mortes resultantes do colonialismo e da guerra — é o fato de que os personagens masculinos são abertamente adeptos da prática da fofoca. Não se trata de uma subversão de expectativas, longe disso. As mulheres também são adeptas da prática, mas são os personagens masculinos que assumem o prazer de fofocar sobre a vida alheia. Ainda, apesar da narrativa estar acontecendo antes, durante e depois de duas grandes guerras (WWI e WWII), Gurnah decide abordar as vidas de personagens que vivem milagrosamente de forma relativamente calma — ao menos no presente. São pessoas que não foram afetadas de maneira direta pelas desgraças resultantes de duas longas guerras, mas sim pela maldade de seus próprios familiares.

Afiya e Hamza são os personagens que o leitor provavelmente irá simpatizará de forma quase imediata, visto que toda a sua história fora pautada por maus-tratos e atos violentos — sejam eles originados em sua própria família, ou resultados de uma vida durante duas guerras. Ficamos genuinamente felizes quando a vida de ambos começa a entrar nos trilhos, principalmente de Afiya, que mesmo sendo tão jovem, conheceu em seu corpo os efeitos de uma sociedade machista. Mas não devemos comemorar antes da hora, pois Gurnah não está interessado em seguir a linha “good vibes” por muitos capítulos.

Existe, porém, uma demora para o romance engatar. O motivo se deve ao número de protagonistas (todos africanos de diferentes nacionalidades) e a decisão acertada do autor de estabelecer as realidades de cada um deles de forma longa e detalhada — mas sem nunca deixar de ser orgânica. Ao decidir investir capítulos inteiros aos protagonistas, Gurnah faz com que o leitor consiga se aproximar emocionalmente daquelas pessoas, ficar feliz com suas conquistas e, obviamente, sofrer com as possíveis tragédias, afinal, estamos diante de uma narrativa que atravessa quase 60 anos, duas guerras e colonizadores alemães, nazismo e racismo — ainda que o último não seja abordado em primeiro plano. Em outras palavras, o autor cria não apenas personagens no papel, mas seres humanos — ainda que fictícios — que nos acompanharão por várias semanas (ou meses, quem sabe anos) após o final de leitura.

Apenas depois de nos apresentar as manias, os defeitos, as virtudes e os traumas de cada um dos protagonistas é que o autor começa de fato a desenvolver a narrativa como um todo. Aprendemos que Khalifa é um resmungão rabugento e fofoqueiro de bom coração — detalhe que o transforma em uma espécie de alívio cômico na história —, sabemos que Hamza é um intelectual autodidata e um marceneiro talentoso que sofre de estresse pós-traumático; sabemos também que Bi Asha teve experiências devastadoras relacionadas a vários abortos. Outra escolha do autor que pode ser considerada equivocada — ainda que momentaneamente — é a contestável e repentina decisão de Ilyas de abandonar a irmã novamente aos cuidados de seus tios abusivos poucos meses após resgatá-la daquele ambiente. O motivo que o levou a abandonar tudo e voltar à guerra, entretanto, é um dos grandes momentos do romance.

Foto: REUTERS/Henry Nicholls

No entanto, quando finalmente percebemos o início da interseção das sub-tramas o romance passa a ficar ainda mais dinâmico graças à construção da relação entre os 4 protagonistas, que agora moram praticamente na mesma casa. Existe um considerável avanço na trama a partir do nascimento do filho de Hamza e Afiya, batizado apropriadamente de Ilyas, em homenagem ao tio ainda desaparecido. A princípio acompanhamos a rotina daquela família — Afiya é tratada como se fosse filha do casal, logo, Khalifa se autodenomina como o avô não oficial do garoto —, mas sem perder muito tempo, o autor salta no tempo — de forma não muito sutil, é preciso destacar — para as décadas de 40 e 50, quando Ilyas (o filho de Hamza e Afiya), passa pela pré-adolescência e adolescência, e quando menos percebemos, ele se formou em jornalismo e está prestes a começar um documentário investigativo na Alemanha em busca do paradeiro de seu tio, desaparecido há quase 5 décadas.

Neste momento existe uma ruptura de atmosfera e a narrativa passa a ter um tom jornalístico, já que o passado de Ilyas (que agora está prestes a completar 40 anos) na pequena cidade litorânea é descartado em prol de sua nova realidade em Hamburgo. É uma pena que o autor tenha apressado esta parte da história, uma vez que o sentimento que fica no leitor é a ideia de que ele gastou páginas consideráveis (ainda que justificáveis) para estabelecer a vida dos personagens durante 90% do romance, e ao perceber que se encontrava diante da parte final do terceiro ato, precisou terminar a narrativa de uma vez. 

Em última análise, Sobrevidas (publicado no Brasil pela Companhia das Letras com tradução de Caetano W. Galindo) é um belo romance sobre múltiplos abandonos que perde um pouco de sua força devido a um terceiro ato escrito de forma apressada — a história criada por Gurnah poderia ser muito melhor se ele não tivesse acelerado os eventos finais — é perceptível como conseguimos sentir uma quebra no ritmo da história quando acompanhamos a fase adulta de Ilyas — pois seria interessante se pudéssemos ter testemunhado um pouco mais de seu processo investigativo em busca de seu tio na Alemanha pós-WWII. Todavia, o rico detalhismo do autor ao construir as vidas dos casais Bi Asha e Khalifa e Hamza e Afiya durante grande parte do romance faz com que a “derrapada” no terceiro ato não seja tão grave.

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