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Caos e violência movimentam “O Harlem é escuro”, de Chester Himes

Como já escrevi aqui sobre A louca Matança, e aqui sobre Um jeito tranquilo de matar, Chester Himes possui um talento único para escrever sequências de abertura ao mesmo tempo violentas, plasticamente deslumbrantes e caóticas, envolvendo dezenas de personagens que sempre nos prendem a atenção, nos fazendo devorar seus livros em poucas horas. E como não poderia deixar de ser, Blind man with a pistol, publicado originalmente em 1969, segue o mesmo caminho. 

Publicado no Brasil pela editora L&PM pocket em 2006, e traduzido para o português por Celina Falk Cavalcante com o apropriado título de O Harlem é escuro — e novamente protagonizado pelos detetives negros Ed Caixão e Jones Coveiro —, o romance é o oitavo e último livro da série Harlem Detectives publicado em vida por Chester Himes — Plano B, que viria a ser o nono romance da série, foi publicado de forma incompleta e postumamente em 1993. 

Tentar entender a trama do romance é uma batalha perdida, mas o início é mais ou menos assim: durante uma ronda rotineira em uma das noites mais quentes daquele ano no Harlem, os detetives se deparam com um rapaz negro correndo enquanto segura uma calça na mão. Nada de novo. É apenas mais um trombadinha tentando faturar um trocado enquanto movimenta a economia do bairro. Coveiro e Caixão sequer esboçam algum tipo de reação até perceberem que minutos mais tarde um homem branco surge cambaleante sem as calças. Ao abordarem o sujeito, notam que ele havia deixado um rastro de sangue no chão graças a um corte profundo na garganta, e segundos mais tarde, ele morre em seus braços após sussurrar o nome do seu assassino: Jesus.

Homofobia? Não com Chester Himes!

Seria Jesus alguém específico? É o que os detetives — e nós, por conseguinte — tentaremos descobrir nessa nova história, ainda mais complicada, caótica, violenta, e curiosamente divertida em certos momentos. Pegando carona no banco de Caixão e Coveiro iremos acompanhar a dupla (que já trabalham como parceiros há doze anos, desde a história narrada em A cor do dinheiro, primeiro romance da série, publicado em 1957) enquanto eles investigam o assassinato do homem sem calças. Após algumas investigações, descobrimos que o sujeito era Richard “Dick” Henderson, um renomado produtor de teatro gay que frequentava os bares do Harlem em busca de sexo com homens negros. Pensando em retrospecto, poderia “Jesus” ser simplesmente um eufemismo para a homofobia religiosa?

Mas como sabemos, tratando-se de Chester Himes, as histórias em seus livros nunca são apenas aquilo que encontramos facilmente na superfície do texto. Nas entrelinhas de todo aquele caos e por trás das incontáveis descrições de pelos pubianos femininos, Himes está na verdade construindo uma narrativa niilista, experimental e avant-garde enquanto costura um intrincado estudo sócio-racial sobre a cultura gay no Harlem entre as décadas de 50 e 60.

Chester Himes em Paris, 1958. Foto de Jean Tesseyre/Paris Match via Getty Images

Aqui é necessário destacar como de imediato podemos perceber uma diferença de ambientação, de clima, e até mesmo na atmosfera da narrativa, principalmente em comparação com seus outros romances, uma vez que agora os detetives não irão apenas investigar assassinatos cometidos por traficantes, cafetões ou gangues de rua, mas sim mergulhar no submundo gay nova-iorquino para investigar um escândalo inter-racial homossexual que seus superiores parecem não estar muito interessados em uma possível resolução.

Evidentemente, se pensarmos de forma puramente literária, existe uma justaposição e uma crescente tensão que fortalece a narrativa, já que iremos testemunhar dois policiais durões negros sendo inseridos contra a vontade em um ambiente hostil repleto de homossexuais, lésbicas butchs, drag queens e mulheres trans — em uma época onde qualquer orientação e identidade sexual diferente da norma cis era considerado crime. E aqui testemunharemos o brilhantismo de Chester Himes ao subverter nossas expectativas, já que o caminho natural de romances policiais da época seria retratar os homossexuais como degenerados sexuais e os detetives negros como homofóbicos — coisa que Himes definitivamente não faz. 

Oras, eu não estava esperando um romance de viés progressivo neste sentido, e curiosamente, durante a leitura justamente no dia 28 de julho — Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ —, me deparei com uma passagem em que não obstante, Chester Himes escreve um breve — porém pertinente — diálogo em que um dos detetives repreende o outro após este fazer um comentário homofóbico. Himes foi categórico ao dizer de forma bem didática que não faz sentido algum as pessoas negras serem homofóbicas e tratarem gays, mulheres trans e lésbicas como aberrações, uma vez que elas mesmas também são consideradas aberrações pelas pessoas brancas. Em outras palavras, eles não deveriam tratar as pessoas do jeito que eles eram tratados.

Musicalidade

Um aspecto interessante da história é o fato de Himes transformar o romance em uma obra que transpira música. Até mesmo o lendário clube de Jazz nova-iorquino Five Spot Café se torna em um dos personagens da narrativa. Já que O Harlem é escuro é um romance muito mais caótico e experimental do que os anteriores, quase que deslocado da realidade e funcionando como um pesadelo surrealista, o ato deliberado de inserir na história um lugar que não apenas existiu, mas que foi palco de gravações, apresentações e ponto de encontro de grandes músicos do Jazz — como Charles Mingus, Thelonious Monk, John Coltrane, Lester Young e Elvin Jones — faz com que um resquício do mundo real se faça presente na leitura, nos ancorando e lembrando que apesar de estarmos em uma obra de ficção, aqueles locais eram reais, frequentados por algumas pessoas que estão vivas até hoje.

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Misterioso – Thelonious Monk ao vivo no Five Spot Café

Entretanto, como disse no início deste texto, a dupla de detetives já trabalha há doze anos no Harlem. Os dois agora estão na faixa dos 45 anos, com cabelos “salpicados de fios grisalhos, e ambos já criando pança” (p. 128), suas carreiras não decolaram, eles continuam recebendo pouco, se ferindo bastante, trabalhando no modo automático, sem conseguir ao menos quitar as hipotecas de suas casas. Logo, não podemos julgar seus métodos e seu descaso na missão de acabar com a criminalidade, principalmente porque ela, ao menos no Harlem, é cometida por pessoas abandonadas pela sociedade, além de eles próprios cometerem crimes tão bárbaros quanto aqueles que eles são pagos para investigar.

É interessante traçar um paralelo entre as carreiras dos protagonistas com a do próprio Chester Himes enquanto escritor negro norte-americano inserido na literatura policial, um gênero literário composto majoritariamente por homens brancos. Além disso, Himes vivenciou o caos da Primeira e Segunda Guerra Mundial, da Guerra do Vietnã, da Guerra Fria, dos linchamentos e da segregação — onde vários líderes negros foram assassinados sistematicamente pelo próprio FBI, portanto não é de se estranhar o aspecto niilista e desolador do romance, principalmente se levarmos em consideração que Himes estava saindo de uma década prolífica, em que escrevia em média 2 romances por ano. Ainda, após 8 romances protagonizados por Ed Caixão e Coveiro, é perceptível um desgaste, ou mesmo uma falta de interesse do autor ao desenvolver, estruturar e finalizar a narrativa.

Ou, talvez — e essa é a minha teoria oficial após passar vários dias escrevendo e revisando este texto —, o livro seja simplesmente um romance perfeito enquanto retrato fiel, ainda que exagerado, de negros, negras, trabalhadoras e trabalhadores sexuais, traficantes, gays afeminados, lésbicas masculinas, e praticantes de sadomasoquismo que tentavam prosperar em uma cidade assolada pela segregação, pela homofobia, pelo crime organizado e pela brutalidade policial.

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